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Necromancia e Magia, por Peter Carroll

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      A arte maldita de tentar comunicar-se com os espíritos dos mortos tem contaminado a grande obra da magia desde seu início.

      No final do século XIX e durante o XX, no Ocidente, a magia começou a separar-se da necromancia, em grande parte devido aos esforços de Macgregor Mathers e os adeptos da Golden Dawn. Aparentemente viram o espiritismo com certo e merecido descrédito e não lhes interessou incursionar na necromancia, ainda que a teoria PPM (platônica-pagão-monoteísta) subjacente em seu paradigma pudesse haver os motivado.

      Alguns dos magos cujo trabalho contribuiu para o corpus da Golden Dawn incursionaram na necromancia por um tempo, todavia com resultados não conclusivos. Dee tentou reanimar um cadáver e comunicar-se com ele em um cemitério, e Eliphas Levi tentou invocar o mago morto Apolônio de Tiana.

      A Necromancia tem persistido pelo menos desde a Idade da Pedra com a veneração dos mortos e através das práticas xamânicas de pôr-se em contato com os espíritos ancestrais, por meio de invocações mágico-pagãs com o objetivo de obter, de certas pessoas mortas, informação ou favores. A invocação católica de santos com fins similares às práticas espíritas que se desenvolveram na década de 1840 nos Estados Unidos chegou a ser frequente nas margens de muitas culturas cristãs protestantes.

      Os católicos, supostamente proíbem a necromancia, exceto quando se trata dos mitos e relíquias corporais dos Santos dos ofícios cristãos. Sabiamente quiçá, decidiram que qualquer outra forma de necromancia invoca somente “demônios” disfarçados de gente morta. Contudo o catolicismo tem o costume de rezar pelas almas dos mortos para facilitar sua passagem pelo purgatório que a dita fé lhes tem reservado; desta maneira, inclusive aparentemente os mortos não santificados não regressarão.

      A tradição medieval da Goetia (e outros grimórios) se desenvolveu dentro do catolicismo e advogou pela invocação dos mortos e demônios usando a mesma base, mais ou menos adaptável. Pelo que se crê, o necromante invoca ao melhor estilo neoplatônico a suprema unicidade ou divinidade, inclusive quando conjura demônios ou mortos para que lhe providenciem riqueza, favores, jovens mulheres, ou para vingar-se de seus inimigos. Macgregor Mathers fez, por suposto, uma tradução moderna de ambas Chaves de Salomão, porém ao que parece mais por interesse acadêmico do que para o uso da Golden Dawn. A Necromancia depende em grande parte de seu efeito sobre a gnosis do medo, a transgressão e a alta ansiedade que geram os trabalhos proibidos com demônios e cadáveres na escuridão dos cemitérios.

      À medida em que a visão cristã de vida após a morte, ainda que um tanto vaga e inespecífica, se convertia em um indesejável inferno de fogo e enxofre, também crescia o negócio sujo e explorador do espiritismo, oferecendo um intermediador que se comunicava e que, por uma tarifa, tranquilizava os vivos com a ideia de que seus mortos estavam felizes no céu. Ambas guerras mundiais geraram uma grande alta nos preços do negócio.

      A interação esotérica com os mortos parece haver tido (observando o passado) uma trajetória interessante na história humana. O corpo humano morto aparentemente evoca um certo temor e repugnância como resposta a questões evolutivas, já que esse medo da morte e da enfermidade dos cadáveres aumenta as perspectivas de sobrevivência. A dor ou culpa pela perda ou a sensação de haver ficado com alguns assuntos pendentes são um plus que fazem sua parte nessas atitudes pelos mortos. Por etapas, a humanidade tem aplacado, venerado, adorado ou tratado de controlar os mortos com infernos, céus ou purgatórios e inclusive, tentado chegar a eles para obter informações ou favores.

      No paradigma mágico Neo-Pagão não podem existir “espíritos” no sentido neoplatônico antigo. Os seres vivos e fenômenos naturais têm certas frequências de onda com as quais um mago pode chegar a interagir, porém como fenômenos “etéricos” ou manifestações “astrais” da realidade, que dependerão da existência das formas físicas; que não são anteriores no sentido platônico ou neoplatônico, e não sobrevivem à sua destruição. Todos os deuses e deusas, os fantasmas e demônios existem como amigos (e inimigos) imaginários dentro da mente humana, e entretanto, ainda assim podem causar efeitos psicológicos e parapsicológicos bastante surpreendentes.

      Assim, inadvertidamente, os católicos romanos têm se referido corretamente a “demônios” quando se evoca os mortos. Os mortos já não existem para responder, portanto, no melhor dos casos, somente se logrará uma reanimação subconsciente das recordações e expectativas dos mortos, criando uma forma de pensamento ou tulpa (como a chamam os magos tibetanos).

      Se os necromantes realmente pudessem obter informação objetiva dos mortos, então existiria uma enorme demanda dos mesmos em todas as partes do mundo para ajudar na investigação de assassinatos.

      Amigos imaginários, tulpas, deuses variados e servidores podem ser de grande utilidade e valor para o mago, desde que este não caia na armadilha de considerá-los como algo objetivamente real e aceitar sem questionar seus conselhos, porque então realmente podem converterem-se em demônios no pior sentido da palavra, amplificando os aspectos subconscientes do mago muito além de sua função original, criando obsessões.

      Portanto, agora temos todas as razões para concluir que os mortos persistem somente em nossa memória e imaginação. Parece que Eliphas Levi mais ou menos se deu conta disto e tratou de desenvolver uma teoria de magia que dependia de algum tipo de “Luz Astral” e os esforços pessoais do mago, no lugar de legiões celestiais, mortos, demônios e arcanjos. Os adeptos da Golden Dawn chegaram a conclusões similares, e inclusive Crowley desdenhava da necromancia.

      A crença na vida após a morte em muitas religiões antigas e modernas não é diferente. Realmente, ninguém que tentou descrever detalhadamente uma vida futura sem corpo logrou êxito; tentar demostrar o contrário somente busca contradizer o evidente, com fins reconfortantes (ou aterrorizantes). O atrativo da necromancia para magos modernos, que deveriam sabê-lo, se centra em todo seu carisma gótico e de obscuro glamour – o calafrio do medo. Isto pode resultar rentável para assustar os incautos, porém assustar a ti mesmo é coisa de adolescentes.

      Trabalhar com a necromancia e Goetia, persistentemente invocando a gnosis do medo, unicamente produz, a nivel pessoal, uma possível alteração do sistema nervoso autônomo, que gera o pálido, delgado e nervoso personagem característico, próprio dos altos níveis de cortisol por excesso de ansiedade. Não conduz, em troca, à auto-compreensão nem faz muito pela capacidade do mago de interagir com a realidade.

      Aqui, na Ilha do Mago [a Grã-Bretanha. N. do T.] temos liderado o mundo da magia e esoterismo durante o último século ou mais. A Teosofia, a Golden Dawn, Thelema, o moderno Hermetismo, a Wicca, o neo-paganismo, neo-druidismo e a Magia do Caos, todos se originaram aqui, de todo o que se tem feito para questionar a estupidez convencional das religiões estabelecidas e os supostos padrões do materialismo, portanto parece pouco provável que o Reino Unido também se converta no lar de um renascer da obscura arte da necromancia.

      O renascimento mágico que surgiu do romanticismo na década de 1880 e que fundou as bases para outro renascimento mágico, o da contracultura do final do século XX, atraiu inteligentes pensadores alternativos, precisamente por sua rejeição à necromancia que sempre havia aparecido na magia até então, e haveria feito com que o pensamento moderno fosse visto como um embuste.

      A necromancia, que aparece muito em papiros mágicos gregos, seria qualificada, em termos de Sir Terry Pratchett, como “Magia Draconiana” na magia Helênica (algo como a “Ciência Espacial” metafísica). Assim como a Magia Planetária se converteu na “Magia Draconiana” do Renascimento, a Magia Estelar, a tentativa de interagir com as fontes extra-terrestres da consciência e da inteligência, talvez possa converter-se na “Magia Draconiana” do futuro.

Nota da tradução espanhola por Astrid Griesser:
      Em todos momentos em que Carroll utiliza o termo necromancia, é necessário esclarecer que faz por extensão o mesmo com trabalhos com a Goetia, estariamos falando, concretamente de práticas necromânticas, posto que esta se ocupa do trato exclusivo com entidades demoníacas. Carroll, entretanto, utiliza o termo de maneira ampla, posto que para ele e dentro de seu próprio paradigma, ambos fenômenos não são outra coisa além de processos mentais. Ele esclarece este ponto quando menciona que tanto os espíritos, como os demônios, servidores mágicos ou tulpas, são processos mentais factíveis de expressão fenomenológica externa, em alguns casos.

Traduzido para o português por Lizza Bathory.

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