Deixe um comentário

MISSIVA DO FUTURO

Cidade do Amor Divino (antiga Belo Horizonte), 22 de abril de 2035

Caro Pablo,

      se está lendo isso, é porque estou mort… hum. Não. Além de clichê, esta introdução está incorreta, já que, a rigor, estarei vivo em 2012. Portanto, guarde seu pesar (ou sua celebração) por mais 23 anos e permita que eu recomece.

      Como já percebeu pelo cabeçalho desta carta, escrevo do futuro. Não foi fácil enviar estas palavras – e explicarei mais abaixo exatamente como consegui contrabandeá-las -, mas eu não poderia partir sem deixar algo que explicasse minhas ações e que buscasse alertá-lo para o que o aguarda. Sinto muito por trazer notícias tão sombrias, mas, acusados de arrogância e egocentrismo como sempre fomos, nada mais apropriado do que escolher a mim mesmo como correspondente final antes da partida. No mínimo, sei que apreciará o desafio contido no gesto.

      Tenho 60 anos. Deveria estar ainda numa fase produtiva, criativa e feliz. Mas estou morto há anos. De certa forma, sempre lidamos com a depressão e, assim, a morte nunca foi algo completamente alheio aos nossos pensamentos; no entanto, desde que nos tomaram a escrita (e lágrimas escorrem de meus olhos apenas por estar sendo capaz de escrever estas linhas), sinto que nada restou de fato que justificasse minha permanência neste planeta. A não ser meus (nossos) filhos, claro – mas até isso nos foi negado desde que Luca e Nina foram enviados à prisão.

      Mas me adianto. Já fui melhor ao estruturar meus textos, mas a falta de prática cobra um alto preço.

      Meu nome é pg. Pablo Villaça e vivo, hoje, naquela que é chamada de República Cristã do Brasil. Nosso presidente, Reverendo Silas Malafaia, tem governado o país nos últimos 12 anos. Sim, há eleições diretas, mas ninguém que possa competir de fato com aquele que se tornou um líder popularizado pela máquina da publicidade, sempre alimentada pelos cofres cornucópicos da religião, e pela mídia, também dominada pelos bolsos recheados de dízimos. Se na sua época havia uma “bancada evangélica”, hoje temos um Congresso Evangélico – e quando a bandeira brasileira passou a exibir as palavras “Ordem e Jesus” em seu globo central, simplesmente sacudi a cabeça por saber que a alteração havia demorado até tempo demais para ocorrer.

      (Percebo agora que não expliquei o “pg.” antes de meu nome. A lei requer que figuras como eu, identificadas como descrentes, antecedam seus nomes com o qualificativo “pagão” (pg.) quando redigidos, embora não necessariamente quando ditos em voz alta. Estas abreviações tornaram-se forma corrente de identificar o status religioso de cada cidadão: além do “pg.”, há o “reJ.” (“renascido em Jesus”), que identifica convertidos; “fD” (“filho de Deus”) para cristãos por criação; e assim por diante.)

      Como certamente já percebeu, vivo numa teocracia cujas sementes começaram a ser plantadas em sua época. Sempre que algum jornalista realizava uma matéria sobre, digamos, aborto e pedia a opinião de um religioso, alguns centímetros da fronteira entre Estado e Igreja eram apagados. Ao longo dos anos, o dinheiro gerado pelo dízimo e direcionado às causas políticas elegeu mais e mais políticos – e, como bem sabe, qualquer crítica aos dogmas religiosos era imediatamente confrontada com berros indignados que acusavam seu autor de “ferir a liberdade religiosa”. Era inevitável que chegássemos onde me encontro agora, de certa maneira – e justamente esta previsibilidade me frustra tanto.

      Não sou cronologicamente um “idoso”, mas estou velho. “É a quilometragem”, explicava Indiana Jones. Há já vários anos que não tenho autorização para publicar meus textos – e se na maior parte do tempo os censores me ignoram, é justamente porque sabem que, aos 60 anos, as gerações mais jovens (que são as que realmente interessam) não prestariam atenção ao que digo. Hoje as tevês são dominadas por VBs (videobloggers) com bordões como “Não tem lógica!” que repetem lugares comuns e substituem o conhecimento por carisma ou um visual descolado. A autoridade, no sentido de dominar alguma teoria ou de estudar para falar com propriedade, é algo temido pelos governantes. É muito mais seguro encher as transmissões com indivíduos ventilando por câmeras de celulares suas impressões superficiais sobre qualquer assunto do que permitir que alguém que se preparou de fato se manifeste publicamente.

      A mente ativa e inquisidora não se deixa manipular facilmente.

      Assim, a “opinião” assumiu o status de “parecer”, ao passo que o expert foi substituído pelo diletante. Alarmados pelas pesquisas que indicavam uma correlação inversamente proporcional entre a cultura e a tendência à crença religiosa, nossos líderes começaram a eliminar certos títulos de nossa literatura. Claro que isto jamais começa de forma abrupta – você conhece os métodos: primeiro, fazem uma proposta absurda que provoca a revolta de boa parte da mídia e dos pensadores, o que leva a um “acordo” para que tomem medidas menos radicais. Isto, porém, já prepara a população para ideias mais extremas e, assim, quando estas ressurgem algum tempo depois, encontram menos resistência. Até que eventualmente eles conseguem exatamente o que queriam originalmente. É a estratégia mais antiga de todas, mas sempre eficiente.

      Lembro-me do dia em que “Dom Casmurro” foi retirado de circulação por suas “sugestões de adultério”. Chocado, protestei, gritei e escrevi artigos. Anos depois, quando as filmografias de Kubrick e Buñuel foram banidas por seus “conceitos secularistas”, apenas acenei a cabeça tristemente. Havia demorado até tempo demais para que isto ocorresse. Afinal, o mesmo regime que exibia “O Evangelho Segundo São Matheus” nas escolas primárias de todo o país não se furtara de apagar o nome de seu realizador de todas as cópias, já que não podia aceitar que obra tão emblemática pudesse ter sido criada por um ateu gay e comunista. Da mesma maneira, quando as caixas de DVD e Blu-ray de “Os Flintstones” passaram a exibir tarjas que traziam a classificação “recriação histórica”, não fiquei realmente espantado, já que os museus de “história natural” (em minúsculas) que traziam dioramas protagonizados por crianças sobres os dorsos de dinossauros já haviam se proliferado pelo país.

      Foi difícil, como pode imaginar, criar nossos filhos neste contexto. Quando Luca e Nina voltavam da escola com seus livros recheados de capítulos intitulados “Criacionismo – Como Surgimos”, eu investia horas e horas em uma educação apropriada, explicando as bobagens contidas no material didático e buscando esclarecer conceitos científicos relevantes. Em retrospecto, eu talvez não devesse ter feito isso. Como pai, ver meus filhos felizes talvez fosse mais importante do que vê-los intelectualmente ativos.

      Por esta razão me culpo por estarem hoje na prisão.

      Luca, claro, foi condenado por “contrabandear material pagão” – basicamente, milhares de filmes banidos pelo governo que ele mantinha em sua coleção particular. Já Nina, depois de chamar a atenção dos inquisidores ao usar as aulas de “Ética Religiosa” da faculdade de Medicina para emprestar livros proibidos para os colegas (entre eles, “Memórias do Cárcere”), acabou sendo aprisionada ao errar a letra do “Parabéns pra Você” em uma comemoração em seu trabalho, quando cantou “Muitas felicidades / Muitos anos de vida” em vez do obrigatório “Com Jesus ao seu lado / Eternidade de Vida”. Tentei assumir a culpa por ambos os crimes, evidentemente, alegando que a coleção de Luca pertencia a mim e que eu havia ensinado tudo incorretamente para Nina, mas as autoridades não me ouviram, preferindo encarcerar meus filhos. Jovens questionadores são perigosos; velhos na obscuridade, não.

      Hoje, para ocupar cargo público (especialmente os mais altos), é preciso professar a Fé. Os partidos políticos, como sempre fazem, se adaptaram rapidamente – e muitos sequer precisaram alterar suas legendas: o PSDB se tornou o Partido Sacro do Brasil; o PV virou Partido da Virgem e o PT converteu-se no Partido Teocrata. A Internet, obviamente, traz filtros que evitam qualquer questionamento ao credo central – e mesmo o Facebook e o Twitter tornaram-se armas poderosas ao permitirem que o governo identificasse “pagãos, ateus e hereges” (ou “PAtH”) através do simples cruzamento de palavras-chave em posts, mensagens particulares e hashtags. Torquemada e o senador Joseph McCarthy teriam um orgasmo se soubessem o que o futuro reservava aos caçadores de bruxas.

Vivemos num mundo em que o progresso científico foi interrompido por “leis morais”. Até mesmo doenças supostamente já erradicadas acabaram retornando graças à interrupção das pesquisas. Homossexuais tiveram todos os seus direitos civis revogados e são encaminhados a “Centros de Regeneração” que se especializam em trazer a heterossexualidade de volta às suas vidas. A taxa de suicídios nunca foi tão alta. Ligar a televisão é uma tortura: entre videobloggers e filmes dublados, pastores pregam quase 24 horas por dia em programas como “Jesus te Escuta”, “A Virgem Está ao Seu Lado” e “Leilão de Indulgências Plenárias”.

      Isto não é exclusividade do Brasil, porém. Lembra-se de quando nos assustamos com uma pesquisa Gallup que apontava que 46% dos norte- americanos acreditavam no Criacionismo? Pois se em 2012 parecia impossível que tantos comprassem a ideia de que a Terra tinha dez mil anos e que os humanos conviveram com dinossauros, hoje é inadmissível que alguém pense o contrário. (Literalmente inadmissível, por sinal.) Boa parte dos países foi tomada por governos teocratas fundamentalistas e, claro, só podemos viajar entre nações que compartilhem o mesmo credo – e nenhuma delas permite visitas a lugares como Suécia, Suíça e Holanda, que se tornaram alguns dos únicos locais nos quais o ateísmo impera. Infelizmente, não por muito tempo, já que uma coalizão de países crentes vem organizado um ataque aos infiéis – e os rumores garantem que o Reverendo Malafaia já disparou ordens para que o General Bolsonaro se reúna com os líderes militares de nações irmãs a fim de concatenar planos viáveis de invasão.

      O que me traz à estratégia empregada para enviar estas palavras: estagiária do CERN, na Suíça, minha sobrinha Alice, pós-graduanda em Física, entrou em contato comigo há alguns meses explicando que o laboratório havia desenvolvido uma maneira de enviar mensagens no tempo através de worm holes cujas localizações haviam sido descobertas através de cálculos que se tornaram possíveis graças às experiências feitas com o LHC (e não me pergunte nada sobre a ciência por trás disso, pois não saberia responder). Empolgado pela mensagem de Alice (e feliz por finalmente poder escrever algo que seria lido por alguém além de mim – ou não, já que somos a mesma pessoa), redigi este texto em meia dúzia de folhas que enviei para minha sobrinha através de um conhecido mútuo na embaixada brasileira na Suíça. E aqui estamos.

      E aqui ficarei.

      Não vejo mais motivos para prosseguir. Sempre imaginei que me mataria quando a indignidade da velhice tomasse conta de meu corpo, mas acreditava que isto ocorreria, não sei, aos 80, 90 anos, quando as palavras finalmente começassem a me faltar. Porém, quando olho ao meu redor, sinto que ultrapassei meu prazo de validade – e nem mesmo o sexo me interessa, já que orar antes de cada transa implorando pela concepção não é minha ideia de diversão. (E as mulheres pagãs, logicamente, foram as primeiras a encontrar severa punição por parte do governo; a religião nunca se mostrou clemente com o sexo feminino.)

      Eu poderia até encontrar forças para persistir caso tivesse meus filhos ao meu lado ou visse alguma possibilidade de escapar deste pesadelo. Mas não vejo. O Estado das Coisas encontra-se tão firme que até mesmo a decisão de passar a cobrar impostos das igrejas foi recebida com simpatia pelos pastores. E por que não seria? Afinal, os negócios nunca correram tão bem.

Ao meu lado, um frasco de comprimidos para dormir aguarda para me fazer sonhar uma última vez. Morrerei livre em uma sociedade dominada pelo dogma. Sabia que chegaríamos aqui, mas muitos viram como exagero ou arrogância meus alertas. É a partir de um pequeno passo que se salta para a teocracia. Eu avisei.

      Agora só me resta adormecer.

pg. Pablo Villaça

Escrito por: Pablo Villaça

image

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s