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MISHIMA: UMA VIDA EM QUATRO CAPÍTULOS, DE PAUL SCHRADER

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Mishima: Uma Vida em quatro capítulos, é uma excelente oportunidade para se aproximar da figura de Yukio Mishima, interessante escritor japonês cuja contraditória personalidade foi digna de ser retratada em um filme. Este tipo de filme, biopics, frequentemente é uma ótima porta de entrada para a obra, o universo de um artista, já que neles é alcançado um retrato vívido e humano do criador, muito diferente das descrições das frias biografias tradicionais.

A história do filme se passa no último dia de vida de Mishima (Ken Ogata), em 25 de novembro de 1970, quando o escritor cometeu seppuku, um suicídio ritual que abalou o Japão e o mundo. Ao mesmo tempo, o filme tem muitos flashbacks que mostram vários momentos da vida do escritor, desde sua infância com sua avó, passando por suas origens na arte da escrita, a criação do grupo chamado Sociedade da Armadura e sua ascenção como artista até se tornar uma figura pública no Japão.

Também são retratadas algumas de suas obsessões, como a beleza física e o combate corpo a corpo, bem como o desejo de harmonizar o mundo das ideias e o das ações, a pena e a espada.

A sua ambiguidade em assuntos sexuais também é abordada neste filme.

Durante a película sobre a vida do escritor — anterior ao dia de sua morte — ocasionalmente ouvimos seus pensamentos em inglês (na voz de Roy Scheider), enquanto todas as outras vozes, incluindo a do próprio Mishima quando não é narrador, são em japonês.

O filme é marcadamente literário e expositivo, tanto os partidários quanto os adversários de Mishima podem assisti-lo e saírem satisfeitos por terem presenciado uma exposição biográfica e literária que evita fazer valorizações.

Mishima foi, além de grande escritor, um líder fascista anacrônico, e esta condição influenciou a divulgação de sua obra. Este filme não é uma exceção. Em uma entrevista a Antonio Weinrichter, Paul Schrader disse que houve ameaças de morte, no Japão, aos seus expositores.

“O filme organiza-se em quatro capítulos temáticos. Em cada um deles se enreda a biografia do escritor com encenações teatralizadas das suas obras. Dá-se assim corpo ao enigma Mishima, ao retrato de um homem na fronteira entre a tradição e a modernidade. Uma vida que tem o seu epílogo no dia do discurso ao exército e do suicídio, apogeu dramático do princípio unificador da pena e da espada, mito original perseguido por Mishima e cuja impossibilidade no tempo presente é a matéria íntima da sua morte demencial e espetacular.”
— Wikipédia.

SAIBA MAIS: SUICÍDIO RITUAL DE MISHIMA

Em 25 de novembro de 1970, Mishima e quatro membros da Tatenokai visitaram, como um pretexto, o comandante de Ichigaya, quartel general das Forças de Autodefesa Japonesas em Tóquio. Uma vez dentro, renderam o comandante. Com um manifesto preparado e panfletos que enumeravam suas petições, Mishima foi à varanda para dirigir-se aos soldados reunidos abaixo. Com seu discurso pretendia inspirá-los a rebelarem-se, darem um golpe de estado e devolverem ao Imperador seu legítimo lugar. Como não foi capaz de fazer-se ouvir, ele encerrou o discurso em poucos minutos. Regressou ao escritório do comandante e conduziu seu seppuku. O costume da decapitação no final do ritual foi designado a Masakatsu Morita, membro da Tatenokai e amante do escritor, porém Morita foi incapaz de executar sua tarefa de forma adequada: após várias tentativas fracassadas, ele permitiu que outro membro da Tatenokai, Hiroyasu Koga, terminasse o trabalho. Então Morita também realizou seu seppuku e foi decapitado por Koga.

Outros elementos tradicionais do suicídio ritual foram a composição do jisei no ku — um poema escrito quando se aproxima a hora da própria morte — antes de entrarem no quartel general.

Mishima preparou meticulosamente sua morte durante pelo menos quatro anos e ninguém fora do grupo cuidadosamente selecionado de membros da Tatenokai suspeitava do que ele estava planejando. Mishima se assegurou de que seus negócios estavam em ordem e ainda deixou dinheiro para a defesa no julgamento dos outros três membros daTatenokai que não morreram.

Segundo John Nathan, seu biógrafo, tradutor e amigo, ele teria criado este cenário apenas como pretexto para o suicídio ritual com o qual sempre sonhou. Quando morreu, Mishima tinha acabado de escrever o último livro de sua tetralogia O Mar da Fertilidade (editado postumamente, já que no mesmo día de sua morte o envíou a seu editor), que constitui uma espécie de testamento ideológico do autor, que se rebelava contra uma sociedade submersa na decadência espiritual e moral.

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