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O QUE SÃO SIGILOS E QUAIS SEUS USOS PRÁTICOS?

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Provavelmente, não há outro aspecto da magia que seja tão amiúde mal-compreendido como estas icônicas figuras lineares. Muitas vezes, a elas são atribuídos um poder magicko intrínseco e algumas são tão comumente usadas que a maioria das pessoas sequer as reconhece como sigilos.

Simplificando, um sigilo é um símbolo que representa uma força específica, geralmente, uma entidade em um ícone gráfico simples, reconhecível. O Dicionário Inglês Oxford define sigilo como um selo ou sinete, derivado de signum, uma marca ou um token que sobrevive no uso arcaico da palavra, significando uma pequena imagem. Além disso, define-o como um símbolo ocultista ou dispositivo que supostamente tem poderes misteriosos e esse uso aparece originalmente na literatura a partir de 1650. Há outra escola de pensamento que deriva a palavra do hebraico סגולה que tem sido erroneamente traduzida como um item de efeito espiritual ou um talismã, mas a tradução mais exata seria pequena possessão/encanto fazendo desta derivação duvidosa.

Uma definição mais prática de um sigilo foi escrita por Israel Regardie: “A palavra Sigilo significa simplesmente ‘assinatura’. Assim o sigilo de um Arcanjo é a assinatura simbólica deste ser. Estes sigilos foram originalmente extraídos dos tradicionais Kameas ou quadrados mágicos”. Mesmo esta apenas define um pequeno conjunto de símbolos do grupo maior chamado sigilos e realmente apenas se refere aos símbolos utilizados por magos cerimonialistas para representar os vários espíritos e anjos que eles evocam em suas operações. Para realmente compreender a natureza dos sigilos, discernir sobre seus usos fundamentais e os tipos de entidades que podem representar se faz necessário um exame mais detalhado.

Diferentes Classes de Sigilos

Existem quatro tipos gerais de sigilos que representam entidades, forças planetárias ou específicas identidades espirituais. Alguns destes sigilos são universalmente reconhecidos e entendidos como é o caso dos signos astrológicos, alguns sigilos são símbolos bem conhecidos no meio ocultista como os selos dos espíritos da Goetia e outros são únicos e contém a identidade de uma entidade em um símbolo misterioso, muitas vezes especificamente concebido por um mago para um propósito imediato. Há também os selos e símbolos pessoais ou sinais identificativos que podem ser classificados como sigilos tais como aqueles utilizados no sistema de magia enochiana ou o selo de uma ordem mágica.

1. Sigilos Gerais

Os símbolos que são usados para representar os planetas e os signos na astrologia são, estritamente falando, os sigilos mais simples. Os símbolos para os planetas pode ser rastreados até o século II d.C. onde aparecem, em forma proto-moderna, no Planisfério de Bianchini e tiveram a sua forma familiarizada no Renascimento ou após o século XII. Esses símbolos foram primeiramente concebidos como monogramas dos deuses que eles representam assim Mercúrio é representado por um caduceu e Marte por um círculo (escudo) e uma seta (lança). Da mesma forma os glifos astrológicos são ideogramas das criaturas do zodíaco que eles representam, de modo que Escorpião é representado pelo movimento ondulatório de um ferrão de escorpião e Capricórnio pela cabeça e corpo de uma cabra com a cauda de um peixe.

Os alquimistas também empregaram um conjunto semelhante de sigilos para representar muitos de seus princípios e estes têm sido adotados por magos para uso próprio. O símbolo para o sal coincide com o elemento Terra, enquanto o símbolo de Mercúrio é universal em todos os estudos ocultistas. Estes sigilos alquímicos são geralmente constituídos de formas simples, básicas, como triângulos, cruzes ou círculos representando forças específicas da natureza ou elementos alquímicos.

2. Sigilos de Entidades

A forma mais desenvolvida de sigilos é usada para simbolizar uma entidade específica. Esta classe de sigilos inclui os clássicos ícones utilizados para representar os 72 espíritos da Goetia que a maioria das pessoas associam com magia cerimonial. A criação destes sigilos deriva das letras dos nomes das entidades que eles representam e geralmente tem o formato de um monograma.

Esses tipos de sigilos apareceram pela primeira vez em textos sobre magia no século XIII, sendo o mais famoso o Heptameron de Pedro d’Abano publicado em 1287 em que os sigilos ainda são quase reconhecidamente letras. Quando os Três Livros de Filosofia Oculta (De Occulta Philosophia libri III), de Cornélio Agripa, foram publicados em 1533 a forma dos sigilos tornou-se mais linear e desenvolveu o estilo das imagens que são utilizadas na moderna magia cerimonial.

A próxima evolução significativa dos sigilos veio com a publicação, em 1575, do Arbatel of Magic de um autor desconhecido. Este livro introduziu os Espíritos Olímpicos e deu sigilos para representá-los. Esses sigilos foram provavelmente derivados dos quadrados mágicos dos planetas e tornaram-se estilizados pelo uso.

Talvez a forma mais desenvolvida de sigilos é a encontrada no conjunto utilizado para representar o 72 espíritos na Goetia, ou Chave de Salomão. Este grimório apareceu pela primeira vez no século XVII, embora a maior parte do material tenha sido retirado de fontes anteriores, mais notavelmente do De Praestigiis Daemonum (A Falsa Hierarquia dos Demônios) de Johann Weyer publicado em 1563. A importância da Goetia foi padronizar esses sigilos e apresentá-los como o ponto focal de um sistema de magia cerimonial.

Esta sistematização dos símbolos que tornaram-se os sigilos da moderna magia cerimonial começou em sua plenitude na obra fundamental do ocultismo publicada por Francis Barrett em 1801, Celestial Intelligencer, vulgarmente conhecida pelo título, The Magus (O Mago). Este livro reúne os ícones gráficos que são usados para representar as forças planetárias em Magick reunidos em um formato reconhecível pela primeira vez. O Mago é conhecido por ter tido uma profunda influência sobre Eliphas Levi e pela Golden Dawn ter usado suas ilustrações como uma parte essencial de sua literatura instrucional  para a prática magicka.

Estes sigilos modernos são criados através de um método simples onde se considera o valor de cada uma das letras de um nome no quadrado mágico do planeta correspondente. Por exemplo, o Espírito de Saturno é nomeado Zazel ( זזאל) que é então traçado a partir do quadrado mágico de três produzindo uma figura linear simples. O início do sigilo é marcado por um pequeno círculo e este é atravessado por uma reta terminando o nome. Há regras simples como usar uma curva dupla para marcar uma letra dupla e adicionar uma corcova a uma linha para indicar que esta cruza outra. Desta forma, um simples desenho linear pode ser feita para representar o nome de qualquer entidade.

Os magos modernos continuaram a desenvolver o design e uso de sigilos e eles são muitas vezes relacionados com a Magia do Caos. O mais notável mago que desenvolveu um sistema para criação e utilização de sigilos foi Austin Osman Spare que publicou seu método n’O Livro dos Prazeres, em 1913. Spare era ao mesmo tempo associado com a O.T.O e com a A.·.A .·. , e criou seu método a partir da prática de criação de sigilos desenvolvida em Herméticas Ordens de Magia Cerimonial, principalmente entre os Adeptos da Golden Dawn do início do século XX.

Segundo a teoria de Spare, o objetivo da operação toma a forma da entidade para a qual o sigilo precisa ser projetado. Isto é feito através da síntese de um símbolo gráfico a partir das palavras que melhor expressam o resultado desejado e, em seguida, usando um dos vários métodos simples para concentrar a energia para carregar o sigilo.

3. Sigilos Talismânicos

O terceiro tipo de sigilos também é baseado nos Kameas ou quadrados mágicos planetários. Os selos usados para representar os planetas são um pouco mais complexos do que simples sigilos de muitas entidades menores, mas também são criados a partir da conexão entre os números nos quadrados mágicos. Neste caso a imagem é composta seguindo o toque em cima de cada número em um quadrado mágico de forma que este seja uma representação equilibrada da força planetária que está sendo retratada. Como estas imagens são utilizadas para mostrar a natureza fundamental de um talismã e sua autoridade/poder invocada para ser utilizada para dirigir o espírito que vai ser confinado no talismã ou controlado por este, esses símbolos são geralmente considerados juntamente com os próprios quadrados mágicos.

Outros projetos gráficos simples que se enquadram sob o título geral de sigilos talismânicos são as figuras lineares, como o pentagrama e o hexagrama, que são utilizadas para expressar uma força espiritual específica. Todos os sigilos são usados em conjunto para criar um design talismânico exclusivo que  expressa o objetivo do mago. Os sigilos gerais mostram a natureza da cerimônia com os sigilos específicos sendo o meio através do qual a entidade invocada pela operação é controlada pelo talismã.

4. Sigillum e Pentáculos

No sentido mais amplo da palavra sigilo é o sinal que o mago utiliza para representar a si mesmo ou, mais precisamente, sua Grande Obra. Sigilos deste tipo muitas vezes representam a conquista de um nível específico de realização espiritual como o Selo de Babalon de Crowley que representa a incorporação do segredo de Babalon e a Besta em sua Grande Obra. Esses sigilos funcionam na medida em eles são utilizados cada vez que o mago realiza uma cerimônia e estes conectam-no em uma coesa série de medidas em direção à iluminação.

Este tipo de sigilo pode ser composto a partir de componentes de todas as outras classes de sigilos para criar um potente e único símbolo que representa todo o curso de vida do mago. Em outros casos, esses super-sigilos são utilizados como um mapa simbólico do universo do mago expresso num sistema específico de Magick como o Sigillum Aemeth de John Dee que é o pentáculo para a operação da Magia Enochiana.

Usos Práticos dos Sigilos

O uso prático de sigilos se estende muito além de qualquer cerimônia individual, eles também são comumente usados para marcar as armas magickas a fim de indicar os poderes específicos para os quais estas foram consagradas. Por exemplo, o Bastão Magicko deve ter os sigilos do Nome Divino do Fogo, YHVH Tzaboath ( יהוה צבאות ) e do Arcanjo Miguel ( מיכאל) inscritos sobre ele para mostrar de onde vem seu poder. Da mesma forma os símbolos que o magista usa em seus pentáculos e lamens também devem mostrar a competência e a autoridade que estes tem para dirigir as entidades representadas pelos sigilos específicos usados em uma cerimônia.

Quando sigilos são usados para representar o objetivo de uma cerimônia eles se tornam o foco da força espiritual ou magicka que é invocada pela operação. Neste caso o sigilo torna-se um símbolo da vontade do mago que é tratado como a entidade a qual o símbolo representa. Personificando os desejos do mago e os sintetizando em ícones gráficos, sigilos tornam possíveis criar um símbolo para cada objetivo magicko, ao mesmo tempo permitem uma interpretação mais ampla do significado dos glifos e assim, talvez, um menor acerto no desfecho das operações.

O uso mais comum para sigilos é a construção de talismãs e amuletos. Eles são usados para representar as entidades que estão sendo invocadas ou conjuradas durante a cerimônia que é realizada para consagrar o talismã. A confecção de talismãs geralmente inclui o quadrado mágico do planeta que rege a área de atuação do talismã e, portanto, a chave para interpretar os sigilos que foram utilizados na sua concepção transmite a legibilidade dos símbolos que foram utilizados. Desta forma, os sigilos que são usados para criar uma imagem/talismã podem ser representações simbólicas muito precisas do objetivo pretendido pelo mago.

O exemplo clássico do uso de sigilos como um dispositivo talismânico é na Goetia, onde o magista utiliza o sigilo em um talismã que ele coloca no Triângulo Magicko como base para o espírito que ele está a evocar manifestar-se. O mesmo sigilo é copiado em um amuleto que o mago usa como um lamen e a partir do qual ele manifesta a autoridade para dirigir o espírito que está a conjurar para realizar o seu desejo.

Sigilos são as mais elásticas e versáteis ferramentas disponíveis para magos cerimonialistas, porque eles podem ser usados para representar quase qualquer tipo de entidade ou objetivo. Muitos magistas colecionam uma boa quantidade de sigilos pessoais à medida que desenvolvem suas habilidades e progridem em sua iniciação e estes misteriosos símbolos são uma importante parte da prática da magia cerimonial.

Traduzido por Lizza Bathory de Ankhafnakhonsu Esoterica

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