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Alan Moore ou “O Mago de Northampton”: uma introdução

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O cidadão comum, de várias capitais do Ocidente, preocupado com seu trabalho, família, aparência e contas a pagar no início de cada mês pode receber um certo impacto ao deparar-se com uma imagem como a de Alan Moore. Um homem alto, não raro com vestes exóticas, longas madeixas e barba bem abaixo do pescoço. Não bastasse isso, desde seus 40 anos, Moore também usa adornos incomuns, como vários anéis de grande porte. Os mesmos são repletos de símbolos ligados ao estudo de magia e, mesmo sem necessidade física, pois não claudica, vez por outra ostenta uma bengala ou bastão em formato de serpente, que para ele é uma espécie de símbolo de poder. O estranhamento de um transeunte ordinário nas ruas de uma metrópole ocidental pode completar-se quando Moore, além de tudo isso, ostenta uma cartola. Esse homem que, sim, é de carne e osso, assemelha-se a criaturas fictícias como Gandalf, o mago de “O Senhor dos Anéis”, com diferenças relativamente pequenas, como o fato de que seus cabelos, aos 57 anos, em 2011, ainda não se tornaram totalmente brancos, embora já grisalhos. É ainda associável à enigmática e exótica figura de Rasputin, o que lhe rendeu um bem humorado verbete na Desciclopédia”.

A despeito de seu visual extravagante para as décadas finais do século XX e iniciais do século XXI, da “aura” de admiração que seu trabalho, métodos e posturas suscita, Moore, como sugerido acima, é humano. Ele é um perfeito representante de seu tempo, dos anseios, conflitos, esperanças e temores entre uma antiga e uma nova safra de leitores situados diante das incertezas de um mundo avassaladoramente veloz. Um mundo em que ciência, arte, filosofia e crença interagem de várias maneiras, não necessariamente de modo harmonioso a todo momento. Um mundo em que, com todo o avanço científico e, assim o supomos, esclarecimento a respeito da vida ou das propriedades das nossas experiências concretas, ainda se debate com as lacunas desses conhecimentos e com o impasse entre subjetividade e objetividade. Uma realidade pósmoderna que faz conviver no mesmo espaço opostos anteriormente irreconciliáveis, mas uma realidade em que prevalecem incomensuráveis distâncias entre os seres humanos, fechados em suas tribos e sob a guarda do monitor de computador, a cujas identidades, dependendo do caso, ainda é capaz de ocultar.

Tal qual os heróis míticos das HQ’s, Moore viveu seus ordálios por apresentar um comportamento incomum ou outsider durante boa parte de sua vida e adquire “superpoderes” na persona do “mago”, a arquetípica figura que surge em contos, mitos e lendas, assim como na alquimia medieval e na literatura pulp do século XX. Ele recebe epítetos como Lord of the Chaos (Senhor do Caos – leia-se “Senhor da Magia do Caos” – do corpo de filosofias e práticas alternativas denominado Chaos Magick), “Mago de Northampton”, “Escriba de Northampton”. Estes, entre outros, revelam, por um lado, um possível talento especial que o mesmo veio a desenvolver no campo do misticismo e de tudo o que é considerado magia entre os atuais seguidores de tais vertentes. Por outro lado, tais denominações fazem parte das expectativas daqueles que consomem seus trabalhos há décadas.

Não cabe aqui uma tentativa de desconstrução de sua imagem, muito menos uma invalidação de suas crenças ou o que se proclamaria serem resultados de suas atividades em magia. É preciso entender que nessa configuração indivíduo-sociedade, Moore, como o exemplo de Mozart, dado por Norbert Elias, é marcado por certas predisposições. Estas, em contato com o meio social no qual o indivíduo se insere, ampliam-se exponencialmente e se caracterizam em conformidade com os recursos, coerções e pressões disponíveis nesse meio. Tais pressões e coerções, entretanto, se favorecem algumas tendências, igualmente reprimem outras. A síntese que Moore representa, na interdependência entre suas predisposições, algo extremamente difícil de indicar com clareza, e as respostas que o mesmo oferece ao mundo em que vive é que de fato ganha singularidade e relevância neste estudo. De fato, é a própria sociedade, o que inclui os grandes grupos de leitores de suas obras em vários países, que o eleva à categoria de gênio em sua práxis. É realmente difícil não se surpreender com a gigantesca quantidade de referências cruzadas que o autor insere em suas obras: sua profundidade em torno de questões políticas, das artes, da cultura de massas, mas, sobretudo, em torno das peculiaridades da mente e dos estados alterados de consciência.

Tudo isso sem perder coerência e capturando a atenção do leitor com grande habilidade. Tais capacidades soam para muitos como um misterioso elemento acima da média que, de acordo com Elias significa que: No presente estágio de civilização, a transfiguração do elemento misterioso em gênio pode satisfazer uma necessidade profundamente sentida. Ao mesmo tempo, é uma das muitas formas de deificação dos “grandes” homens, cuja outra face é o desprezo pelas pessoas comuns. Ao elevar o primeiro acima da medida humana, reduzem-se as outras a um nível abaixo dela. (ELIAS, 1995, p. 54)

Esta citação de Elias torna-se ainda mais interessante ao recolhermos o depoimento do próprio Moore a respeito de seu processo criativo. Em entrevista dada ao jornalista Bill Baker, no livro “Alan Moore on his work and Career”, ele afirma ser alguém que foi capaz de sintetizar diversos estilos de literatura, interesses, abordagens dentro de seus próprios impulsos de leitor compulsivo desde a infância:

“… Eu meio que senti como se eu não tivesse um estilo próprio, porque eu parecia ser apenas um espelho para qualquer escritor que me havia impressionado. (…) E você começa a perceber que todos os grandes artistas, os artistas originais, que adorava, que é claro, por sua vez, foram influenciados por muitas e muitas coisas diferentes – artistas diferentes, experiências diferentes – de alguma forma todos se juntam para acabar como o seu estilo particular. E então você os remexe, juntamente com sua própria experiência de vida, suas próprias inclinações e tendências, e o que sairá no final será exclusivamente seu, não importa quantas influências você absorveu. (BAKER, 2008, p. 17-18)”

Seu interesse, conforme indicado na supracitada entrevista com Baker, também se voltou para histórias de mistério e terror, coisa que teve como resultado algumas obras suas baseadas no estadunidense H. P. Lovecraft, escritas entre 2003 e 2011.

A produção de Moore, no entanto, é em sua maior parte de inspiração endógena. Tem como base especialmente os autores de língua inglesa e, apesar da forte influência dos comics e dos pulps norte- americanos, é aos britânicos que ele deve a maior parcela de sua formação literária. Muitos desses autores são pouco mencionados ou publicados no Brasil. Dois deles merecem certo destaque: Algernon Blackwood e Dennis Wheatley. Blackwood foi um contista e romancista inglês de histórias de terror e apresentador de programas radiofônicos de histórias do mesmo gênero. O mesmo foi membro da Ordem Hermética da Aurora Dourada, a Golden Dawn, da qual participou Aleister Crowley, uma das principais figuras de referência sobre magia na série Promethea127. Já Wheatley, cuja obra se concentrava em romances ocultistas, em 1942, lançou V for Vengeance. É óbvia a relação dessa obra com V for Vendetta, uma das mais aclamadas HQ’s de Moore.

[O REENCANTAMENTO DO MUNDO EM QUADRINHOS, uma análise de Promethea, de Alan Moore e J. H. Williams III, Carlos Holland, Cap.1]

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