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Conversações com cristãos – Parte I – por R. C. Zarco

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Fazem bem duas décadas e meia que me comprometi a, jamais, voltar a discutir, dialogar criticamente ou argumentar com um cristão, seja de que corrente ou “igreja” for. Porém, amiúde, descobrimos que a queda no Tempo suscita diversas contradições e, toda existência, quiçá seja barroca por demais para suportar convicções de qualquer ordem. Assim. hoje, vi-me, vez mais, envolto numa querela com cristãos. Para vosso deleite e apreciação crítica, posto os melhores momentos, ou seja, aqueles onde não sou apenas vituperado com tabuísmos rasos e a discussão promove interessantes exposições no campo do Pensamento. Sem mais delongas, ei-la (o nome de meu interlocutor foi ocultado, obviamente por razões éticas e legais):

Cristão XXX: “A fé não precisa de provas, ou você crê ou não. Ponto!
(…) Assim como todos deram suas opiniões, posto a minha aqui e espero que meu ponto de vista seja respeitado. Uma Feliz e Santa Páscoa a todos!”

Nosologista Do Incurável: “Saudações caríssimo XXX,

Falando a partir de mim, não precisas temer por qualquer desrespeito à ti enquanto pessoa. Exatamente por NÃO ser cristão, principalmente católico, estou absolutamente liberto e eticamente cônscio de que toda sincera alteridade passa pela perseidade inalienável do outro. E que esse outro, antes de tudo o mais, detém um direito inalienável a agir segundo disposições metafísicas (fé) que bem lhe aprouverem, sem, com isso, afetar em nada a relação empírica que detém comigo.

Quando digo que ‘por NÃO ser cristão’ encontro-me em posição de antemão favorável a respeitá-la deixo entrever, como argutamente deves ter percebido, que se o fosse não estaria em condições de fazê-lo. Sim, o Cristianismo é que, apesar de toda argumentação especiosa de Duns Scott em sentido contrário, NÃO respeita a mínima perseidade alheia e sempre avalia o “fora”/outro a partir do cristão “dentro”/si-mesmo. Vejamos comprovações do que digo a partir das próprias fontes cristãs-católicas:

A) Um dogma inviolável do Cristianismo católico, e de diversas correntes cristãs dissidentes, compor-se-á a Queda Original. Desde a querela Pelágio x Agostinho todos são, desde o seu nascimento, considerados pecadores, ímpios e maculados pela Queda Original e articulado Pecado Primordial. Até mesmo uma linda e inocente criancinha, aos olhos do Cristianismo, queimará com justiça divina – logo, inquestionável – no Inferno por não ser batizada e chafurdar na maléfica senda do Pecado (cf. Agostinho, “De peccatorum meritis et remissione et de baptismo parvulorum”, I.21; “Contra Julianum”, V.44). E, sim, para a Igreja Católica Apostólica Romana esse é um dogma inquestionável e, negá-lo, significa o “pôr-se à parte” do Cristianismo e da Graça do Senhor. Recordemos, à título de comprovação, como o Vaticano quase “excomungou” ou “suspendeu temporariamente” frei Claudio van Balen, erradicado em Minas Gerais/ Brasil, porque esse recusou-se a aceitar o Pecado Primordial em seus artigos (cf. entrevista concedida pelo citado a Fernando Gabeira em seu programa na “Globo News” em 09/03/2014).

B) Um elemento central da teologia cristã, principalmente católica, trata-se a de uma escatologia instilada pelo futurismo. Como podes comprovar no virulento texto “In Sacrum Beati Ioannis Apostoli & Evangelistiae Apocalypsin Commentarii” do espanhol JESUÍTA, Francisco Ribera, a escatologia arranja-se um dado inexorável e o futurismo à sua perfeita forma de análise. Essa futurista escatologia exposta no imenso livro supra, e que representa a corrente de pensamento principal da Igreja e dos jesuítas, ordem eclesiástica donde provém o beatíssimo papa Francisco, prega que todos que “negam Jesus Cristo” fazem parte da corte do Anticristo e, por isso, estarão condenados no inevitável Dia do Juízo Final. Como vês, não significa apenas “possuir ou não uma fé livre de historicidade”, pois à minha estória, assim como toda História Humana, possuem o seu término pré- determinado e todos que não concordarem com dogmas centrais do Cristianismo católico, como, por exemplo, aceitar Jesus Cristo em suas vidas e COMO FIGURA HISTÓRICA apta a protrair uma escatologia, condenar-se-ão para todo o sempre.

Enfim, melhor interromper agora dileto XXX, pois quiçá percebas que o seu mero diálogo comigo poder-te-ia condenar ao Inferno, segundo a teologia e crenças cristãs-católicas….hahahha. Se existe, SIM, uma instituição, fé e conjunto axiológico moral excludentes, incapaz de respeitar o outro em toda sua perseidade, trata-se do Cristianismo e, especialmente, o Catolicismo. Expor a farsa historiográfica e pretensões constantes à historicidade desta fé é o mais brando que se pode fazer, defronte de todo um edifício metafísico e moral que prega a intolerância com o diferente, ódio ao outro e uma identidade tirânica.

Amplexos fraternos e, como diria meu amado Irmão YYY, pio seguidor de Francisco de Assis (sim, tenho amados amigos cristãos – surpresa!),

Paz e Bem!

OBS.: Feliz Ēastre! Afinal, se me desejas uma santa páscoa, por que não desejá-la uma benfaseja festividade pagã?”

[Crédito da Imagem: Michael Pacher, “St. Wolfgang e o Diabo”, parte do rentábulo “Kirchenväteraltar” (“Pais da Igreja”), óleo sobre madeira, circa 1483 (Alte Pinakothek, Munique, Alemanha)].

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