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A CONQUISTA DA PERCEPÇÃO

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Nenhum deus, nem um santo intermediário, está anotando em nenhum livro celestial teus erros e tuas virtudes. O que deves fazer de tua vida somente é estabelecido por tu. Teus arrependimentos noturnos são teu único juiz universal. Não virá nenhum Messias para recompensar-te ou castigar-te colocando teu cadáver aqui ou ali.

Se és teu único juiz, és teu único dono. Se és teu único dono que coisa que emane/dependa de ti poderia ser-te impossível?

“Coisas que emanam de ti”: Teus pensamentos, tuas ações, teus sonhos… tua percepção. Certamente tua percepção é tua, não das coisas. As coisas são apenas enigmáticas sugestões, distantes e sutis fontes de inspiração, pretextos para que se ativem os grandes dotes pessoais de criação de mundos, os quais chamamos percepção.

Dominar e alterar a percepção como se faz com os pensamentos, os projetos, as ideias. Sopesar, eleger, descatar, provar, desfrutar também o que percebes, como o percebes. Se fores completamente dono de ti também quando percebes, nenhuma vontade remota, incluida a de um deus, conseguiria sequer roçar-te.

Sejas consciente de que tens uma percepção própria, assim como tens ideias próprias, gostos próprios. Viva conforme a certeza de que tudo em ti é único, irrepetível, que tudo leva a marca inconfundível de tua personalidade, incluindo o aspecto das coisas que te rodeiam. Conquiste a percepção dessas coisas como uma parte de ti mesmo que tens negado até este momento, com a falácia de que te era alheia. Porque o que chamas de mundo, as formas e atitudes que lhe atribui, é a genial e terrível criação de tua capacidade de perceber. Assim conquistar a percepção vem a ser como conquistar o mundo.

Para conquistar a percepção cada um deve descobrir e percorrer seu próprio caminho (Como poderia ser de outro modo?). Somente o primeiro passo parece comum: Deve-se começar a reconhecendo e aceitando-a como um talento próprio. A experiência demonstra que o que vemos, com o que topamo-nos, o elegemos
sempre nosso: É bem sabido que o mundo, “os demais”, muda segundo nosso estado de ânimo. Te entedia conviver com as pessoas e nesse dia recebes de todos lados mensagens inóspitas, sais radiante de casa e a realidade revoluteia alegre ao teu redor… O “cristal com que se mira” se põe sempre em ti, e o mundo corre a vestir-se da cor escolhida.

Aviso para náufragos: Saber-se dono da própria percepção, e portanto começar a submetê-la à sua Vontade, presupõe arriscar-se a deparar-se com o fantasma da solidão, o principal cão de guarda do rebanho. Ter todo um mundo próprio, como o último homem — ou mulher — sobre a terra: sem ídolos, sem verdades eternas nas quais amparar-se por um momento de descanso, sem “almas gêmeas”, sem certezas dos outros, tomando todas as decisões, valorando todas as coisas desde o zero… Quem se atreve?

Muitos espantalhos se agitam no ar contra os que têm a soberba de reconhecer-se e aceitar-se inteiro no que pensam e em como pensam, no que percebem e em como percebem. Na modernidade a principal ameaça é o medo da “loucura”, esse pavoroso anatema com o qual a Ciência substitui as acusações de diabolismo da velha Igreja. Jung já dizia em sua Teoria Psicanalítica: “Antes chamava-se diabo o que hoje chama-se neurose” … Somente a um deus é dado o poder de criar mundos, dizem todos os que usam batina negra ou branca, abatendo geração após geração os filhos de Lúcifer.

O “mundo compartilhado” do rebanho parece mais seguro somente porque se vê mais concorrido, como se passava com o Titanic. Não dá a impressão de existir solidão nele. Porém se miras de perto os que o habitam, como já terás feito, observarás que estão completamente desconcertados, aterrorizados. O mundo compartilhado do rebanho é inexplicável, vazio, decepcionante, cruel: um autêntico “vale de lágrimas”. Tudo é luta e desassossego, e a morte é e único descanso. Os que se empoleiraram nele, por preguiça ou covardia, somente conseguem aprender bem a blasfemar contra a vida. Porque se vives em um mundo que não te pertence, tua vida não te pertence. E se tua vida não te pertence, é uma experiência odiosa.

© Miguel Algol.

Tradução de Lizza Bathory.

Fonte: El Baile del Espíritu

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