Deixe um comentário

INVOCANDO O BARON

image

(As palavras com * se encontram explicadas no final do artigo.)

O Baron Samedi* é um dos loas* principais do Vodu do Haiti e também de Nova Orleans. Está vinculado à nanchon* Guédé*, da qual é manifestação, cabeça da família, o pai espiritual. Tem diversas encarnações ou personalidades, entre elas as de Baron Cimetière*, Baron La Croix* e Baron Kriminel*. É o marido de Maman Brigitte*. O Baron é o loa dos mortos e senhor dos cemitérios. Está relacionado de maneira especial com a magia negra e os conjuros.

O descrevem tradicionalmente como uma figura sofisticada e extremamente sedutora, com face de uma caveira, cartola, smoking, óculos escuros — o qual amiúde falta um cristal — e tapões de algodão nos orifícios do nariz, como um cadáver preparado para o enterro. Frequentemente leva um bastão ou um báculo. Dada sua fixação pelo tabaco e rum, costuma apresentar-se com um cigarro entre os dentes e também às vezes com um copo na mão. Sua voz é notavelmente nasal.

Seu veve* ou sigilo é uma cruz sobre um pedestal flanqueada por dois ataúdes. Suas cores preferidas são a negra, a branca e a púrpura.

O Baron tem uma personalidade extremamente zombeteira e procaz. Gosta de fazer piadas muito sujas e obscenas tanto para os seres humanos como para outros loas. Fala constantemente palavrões e faz alusões sexuais mais grosseiras. Os símbolos fálicos o representam. Uma das coisas que lhe são mais divertidas durante um ritual ou manifestação é atordoar os assistentes tornando públicos seus mais escondidos segredos eróticos ou sexuais. Apesar de estar casado com a poderosa Maman Brigitte, costuma perseguir as mulheres mortais.

Como loa da morte, espera os humanos nos cruzamentos e estabelece quem deve morrem e quem não. Somente ele pode aceitar a morte de um ser humano, porque é ele em pessoa quem cava sua tumba. Assim o Baron é convocado para curar os enfermos mais graves, pois é ele, em última instância, quem decide se morrem ou vivem. O consideram um juiz muito sábio nestes ministérios. Se opta por que um ser humano morra, uma legião de ajudantes ou servidores menores, todos vestidos como ele porém sem sua magnética personalidade, ajudam ao falecido a chegar à Guinee*. Se considera que vale a pena que o humano viva, lhe curará de toda enfermidade ou ferimento. O mesmo vale para qualquer bruxaria letal (wanga) feita contra alguém, por mais poderosa que seja: será inútil se o Baron decidir que a pessoa sobreviva a ela. Inclusive, se considera que a feitiçaria tenha sido injusta, a devolverá contra quem a fez. Ao Baron lhe agrada proteger especialmente as crianças, por isso se pede sua ajuda quando alguma delas está enferma, e também para conseguir dinheiro com que sustentá-las. Possui também o poder sobre a ressurreição, e sobre a possibilidade de que os seres humanos se transformem em animais.

O Baron é o amo dos zumbis. Sua vontade garante que o morto descanse em sua tumba e não retorne ao mundo dos vivos convertido em um deles.

Por troca de seus favores, o Baron pode pedir determinadas coisas, dependendo de seu humor nesse momento: Um ritual consagrado a ele, ou que os que lhe convocam levem roupa negra, branca e púrpura, ou uma oferenda de cigarros, rum, café ou amendoins tostados. Há ocasiões em que prefere também arroz, pão, feijões pretos e carne bem passada. Em Nova Orleans se afirma que o rum que mais agrada ao Baron, e ao resto da família Guedé, é o chamado piman: um rum no qual se tenha posto maceradas vinte e uma pimentas muito ardidas. A pessoa que durante o ritual é possuida realmente pelo Baron beberá o piman como água porém a que está fingindo queimará a boca.

Vocabulário

(Maman) Brigitte – Chamada também pelas formas Maman Brigit, Manman Brijit, Ma’man Brigit, Grann Brigitte, ou simplesmente Maman. É a esposa do Baron e, como ele, loa dos mortos. É considerada a mãe dos cemitérios. Certos autores relacionam seu nome com a deidade celta Brigit ou Brighid, uma das Tuatha Dé Danann.

Cimetière – “Cemitério” em francês. Baron Cimetière é Baron Semetye no crioulo haitiano.

(La) Croix – “A Cruz” em francês. Observe o veve do Baron. Baron La Croix é Baron Lakwa en crioulo haitiano.

Guedé – Escrito também Gede, Ghede ou Guédé. É uma família (nanchon) de loas relacionados com a morte. Vivem nos cemitérios e se diz que aparecem nas igrejas católicas à noite. Há numerosos loas Guedé, sendo os mais célebres o Baron Samedi e Papa Ghede, este último considerado o cadáver do primeiro homem que morreu e o senhor dos cemitérios de Nova Orleans. Alguns autores consideram que os Guedé têm uma relação especialmente familiar entre eles, diferente do resto dos nanchons.

Guinee – O mundo dos espiritos, ao qual viajam os mortos.

Kriminel – Do francês criminel, “criminal”. É a encarnação mais terrível do Baron. Se diz, entre outras coisas, que se a comida que oferecem ao Baron Kriminel não é de seu agrado, devora em pedaços os braços do oferente.

Loa – Também lwa. São os “espiritos” ou “deidades” do Vodu. Se agrupam em famílias ou nanchons.

Nanchon – A palavra procede do francês nation (“nação”). Significa uma família ou agrupação de loas. Entre as mais conhecidas estão a Guedé, a Rada, a Petro, a Nago, a Kongo, a Ibo e a Djouba.

Samedi – Significa “sábado” em francês. Outras formas de chamar o Baron em crioulo haitiano são Baron Samdi, Bawon Samedi ou Bawon Sanmdi.

Veve – Símbolo pictográfico, sigilo ou cosmograma de um loa, usado para representá-lo especialmente durante o ritual.

© Miguel Algol.

Traduzido por Lizza Bathory.

Fonte: El Baile del Espíritu

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: