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A Sombra Gótica Anglo-Americana na Arte e Literatura Portuguesa atuais

Num tempo de incertezas, dúvidas profundas acerca do futuro e de revelações inquietantes sobre um passado cuja ameaça parece pairar assustadoramente sobre um presente repleto de pessimismos, surge, no panorama da literatura e das artes nacionais, um conjunto de criadores cujas visões negras captam os “medos de existir” inerentes à sensibilidade portuguesa, assimilando simultaneamente efeitos da criatividade gótica Anglo-Americana que sobre as suas obras projetam uma sombra de luminosidade que melhor revelará a sua originalidade.

Desde as atmosferas inquietantes do universo ficcional de Ana Teresa Pereira, tão felizmente “ensombrado” pelas criações de Henry James, Truman Capote, Iris Murdoch e Hitchcock; aos “livros negros” de Gonçalo M. Tavares, onde as personagens se confrontam com um estado de desolação existencial e exprimem visões tão sombrias e alucinadas sobre a condição humana, como as de Ahab ou Bartleby de Melville; passando por artistas como Nuno Cera, com experiências artísticas em Berlim e Nova Iorque, onde produziu arte como metáfora para o colapso social e cultural contemporâneo tendo criado zombies como outsiders e fantasmas semelhantes a pessoas perdidas e desprovidas de passado e futuro, pairando sem destino num espaço decadente; podemos chegar à mais forte captação desta “darkness visible” através do gótico poético e musical de Fernando Ribeiro, vocalista dos Moonspell, que nos lembra a negritude do universo ficcional de David Soares, escritor mais diretamente conotado com o Fantástico e tradutor de Alan Moore, Jack Dann e Philip K. Dick, além de ser leitor assíduo de Alexander Theroux, Edward Carey e Flann O’ Brian, tendo contactado com o pensamento de John Douglas, um dos criadores da análise de perfis psicológicos de assassinos em série para o FBI, e crucial para a construção do pintor psicopata em O Evangelho do Enforcado, provando-se assim que, sem todas estas luminosas sombras, a literatura e arte Portuguesa atual decerto viveria rodeada de impenetráveis trevas.

Texto de Maria Antónia Lima – Universidade de Évora

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