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Temporadas no Abismo — Capítulo 3: Psicologia Estudantil

— Então Camilla, o que aconteceu naquele recreio? — O psiquiatra era um homem jovem de uns 20 anos, usando óculos, parecia razoavelmente com o arquétipo atribuído aos homens da profissão, poucos alunos eram encaminhados para aquela sala, mas consideravam aquele um caso de emergência, ela tinha que ser analisada por um profissional. A sala era cheia de prêmios escolares, na verdade, o doutor atendia pessoas da escola e de outros lugares, naquele local, ali mesmo, dentro da escola, ainda era novo na profissão, e tinha que fazer esse negócio para ter um escritório próprio, mas pagando com atendimento aos alunos mais necessitados.

— Eu já falei pra diretora, eu cortei a menina porque ela me bateu por trás, na nuca, um tapão. E eu ri porque foi engraçado. — Ela segurava o livro “A Prostituta Maligna”.

— O que tem de engraçado em ver uma colega sangrar e gritar? — O doutor Hiroya Oku tinha um olhar repreensivo.

— Ah, é como um filme de terror, só que pessoalmente, é muito engraçado, agora por que é engraçado, não sei dizer, é algo natural, deixa feliz e nos faz rir. — Ela sorria debochadamente enquanto falava.

— Você não respondeu. O que tem de engraçado?

— É engraçado porque é. Como posso explicar? Hilário? Engraçado? Cômico? Divertido? — Era totalmente sarcástica.

— E por que, por que é hilário, engraçado, cômico e divertido? — Ele mantinha a postura, embora as respostas da criança chegassem a soar como uma verdadeira zombaria.

— Porque eu sinto que é, eu senti uma coisa boa, uma vontade de rir, é inexplicável, é como sentir fome quando se fica sem comida. — Deu uma convincente e sincera resposta.

— Então você simplesmente sente vontade de rir? — Agora o doutor começava a se interessar.

— Sim, é algo totalmente natural, não tem como explicar, mas é bom.

— Camilla, você sofre de depressão?

— Depressão é o que mesmo? — Desconhecia alguns termos, embora tivesse um vasto vocabulário.

— Uma espécie de tristeza permanente, sua vida não faz sentido, você não sente felicidade, ou se sente, é muito raro, você deseja morrer, essas coisas.

— Não, não quero morrer, não me importa o sentido da minha vida, não fico triste, mas também não fico feliz, as coisas são sem graça, mas não são incômodas.

— E o que tem graça pra você?

— Filmes de terror, alguns deles, acho que só, eu ouço música, mas não é interessante.

— Por que faz algo que não é interessante?

— Porque usar fones é algo bom, eu não escuto o que está ao redor, e aí não me distraio no que estiver fazendo, eu escuto Slayer, eu não entendo o que eles cantam em inglês, mas sei que estão falando coisas que parecem filmes de terror, eu vi as traduções, é mais interessante.

— Você parece viver no seu próprio mundo, Camilla, você parece não se importar com as pessoas, apenas consigo mesma. Se acha melhor que os outros?

— Sim, eu sou forte, e não como os sentimentais, os fracos, os cheios de fé, os covardes, os ignorantes, os burros, os perdedores e os idiotas. Eu sou uma pessoa preparada para a vida. E vivo no meu mundo quando posso, nunca tive problemas.

— Quem te disse isso? — Ele sabia que uma criança não podia tirar aquilo do nada

— Papai, ele disse que existem os perdedores e os vencedores, os fracos idiotas são perdedores e os fortes inteligentes são os vencedores, isso nos torna superior.

— E você acha inteligente levar uma suspensão na primeira semana de aula?

— Sinceramente não, mas não foi algo tão idiota também, foi
necessário, acho que agora ela sabe que não deve mexer comigo.

— Por que não faz amigos na escola, Camilla?

— Porque não quero, prefiro ler, desenhar ou estudar.

— Não se importa de ver seus colegas brincando, se relacionando, e você ficar isolada?

— Tanto faz, não me importo com eles, não faz diferença o que estão fazendo.

— Entendo, estou anotando o seu perfil psicológico, é isso que faço, eu irei aconselhar você e seus responsáveis a como devem agir, você sofre de um avançado problema de sociopatia, você não se relaciona com as pessoas e não se importa com elas, tendo total indiferença e frieza ao que sentem e pensam, não sente culpa nem remorso, mas não pode ser considerada uma psicopata, porque você não finge que se importa, você está em um nível mais grave, porque está certa de que a violência é uma boa solução em uma reação, e acha que sempre está certa.

— Dá para perceber isso na minha voz, doutor? Eu achava que iria me dizer algo que eu não soubesse, eu não acredito no trabalho de psiquiatras, eles nunca vão me entender. — Ela lançou no ar as sua palavras repentinamente.

— Não terminei de falar. O que quero entender é o porquê de seu comportamento. Eu já pude perceber que você é sincera, embora seja por causa da convicção exagerada de estar sempre certa, mas me diz, o que te leva a pensar assim? Psicopatas de verdade agem de todos os piores modos possíveis e acham que estão certos, como você, só que geralmente dissimulam as suas ações, quer dizer que você está em um estágio em que nem mesmo tenta dissimular sua ação, porque sua convicção de estar certa é tão forte que você acha que a sociedade deverá aceitá-la, por ser justo, achar que não pode ser punida estando certa. Mas não é assim, você será punida se fizer coisas como cortar os pulsos de uma colega.

— Serei, não é? Nesse mundo as pessoas são punidas por tentarem sobreviver, se você reage a uma briga, você é punida. — Ela agia como se fosse uma vítima.

— Tá bom Camilla, eu não sou idiota. Não finja mais, está mais do que óbvio que você não fez aquilo para se defender, fez para se divertir, você sente algum tipo de alegria quando vê as pessoas sofrerem, você é sádica, só que pelo jeito, você não sabe disso, você acredita nas mentiras que fala sobre “se defender”, mas na verdade você faz quase como por instinto. Quando você disse que ria como se fosse algo natural, você foi sincera, mas não soube explicar muito bem, porque você nem ao menos sabe realmente porque isso acontece, então é realmente um distúrbio do qual você sofre, e que faz com que tenha atração por violência, incluindo esse livro que você está lendo. — Apontou para o A Prostituta Maligna. — Mas por que? Me conte, você tem algum trauma? Normalmente as pessoas não nascem frias e cruéis, elas são transformadas nisso, pessoas que se divertiam com o sofrimento alheio tinham motivos para se tornarem sádicas, Andrei Chikatilo, o canibal russo, teve o irmão morto, achava ser castrado, era
extremamente frustrado e sofria bullying, Henry Lee Lucas foi abusado sexualmente, era vestido de menina e Alonso Lopes, foi expulso de casa e estuprado. — O doutor era muito bom, estava começando na carreira, ainda jovem, embora estivesse ainda trabalhando em uma escola, tinha futuro, sabia analisar bem a mente humana, além de ter um bom conhecimento sobre maníacos, tendo feito alguns trabalhos sobre psicologia e criminologia lado a lado para entender os assassinos mais violentos de que se tem conhecimento na época da faculdade, recebendo verdadeiras chuvas de elogios de seus professores.

— Eu não conheço nenhum deles, tirando Henry, eu li um livro sobre ele, “Henry e Ottis, a Dupla da Morte”, ele tinha todos os motivos para fazer as barbaridades que fez, se uma pessoa sofre, é muito infeliz, ela quer parar de sofrer e então ser feliz, mas ao mesmo tempo, principalmente se ela não conseguir as primeiras opções, ela irá querer que as outras pessoas sejam infelizes com ela, sejam mais infelizes que ela, sofram com ela. — Se lembrava do livro que leu, contando a chocante história dos maiores assassinos Estadunidenses da história, Henry Lee Lucas e Ottis Toole, que agiam em conjunto e fizeram mais de 300 vítimas, e não cometiam simples homicídios, praticavam necrofilia, canibalismo, estupro, pedofilia, atos de extremo sadismo antes das mortes, filmavam as execuções, entre outras barbaridades, o livro incluía detalhadas descrições dos crimes baseadas nas confissões dos criminosos, detalhes de suas vidas pessoais, e uma receita de molho para carne humana criada por Ottis. Aquele era um de seus livros favoritos, leu com prazer e envolvimento cada uma das 300 páginas de pura violência e perversão, era
impressionante a irresponsabilidade de Satoshi quanto à filha, ele permitia que aos 7 anos ela lesse tudo aquilo, alguns pais exageram nas proibições, mas podia-se dizer que a liberdade que ele dava para ela quanto aos seus envolvimentos literários e cinematográficos fosse exagerada e indevida, já que ela quase sempre escolhia os livros mais violentos nas bibliotecas e livrarias, e o mesmo tipo de filme nas locadoras.

— Você leu um livro sobre Henry Lee Lucas e Ottis Tooles? — Hiroya se surpreendia cada vez mais, aquilo não era um livro pra uma garota de 7 anos, mas o que disse sobre o motivo de todos os crimes era o realmente surpreendente, teria que pensar mais para poder lidar com aquilo, e a faria falar mais enquanto isso.

— Sim, eu leio muito, meu pai me acha um prodígio, pois leio coisas maduras e complicadas pra minha idade, e eu entendo a maioria das coisas, na verdade, tudo.

– O que sentiu quando leu sobre os crimes de Henry Lee Lucas?

— Envolvida, entretida, alegre, era uma alegria boba, tipo vontade de rir, mas não ria, só me divertia com ele, era algo suave, mas ainda mais intenso do que o que geralmente sinto quando leio.

— E o que você sente quando lê?

— Levemente entretida, uma pequena alegria, um prazer, não sei, mas muito muito fraco, não sei explicar bem, é difícil explicar
sentimentos.

— E você tem preferência por que trechos?

— Trechos em que as pessoas sofrem.

— Você disse que quem sofre e não consegue ser feliz acaba querendo compartilhar seu sofrimento, o que te levou a pensar nisso? Não é algo simples, ainda mais para alguém da sua idade.

— Eu percebi isso quando li o livro de Henry Lee Lucas, eles tinham sofrido muito, eu me imaginei no lugar dele, se eu fosse submetida a um grande e constante sofrimento, eu iria querer fazer com que alguém pagasse, alguém sofresse mais do que eu, me vingar. Se esse sofrimento é constante, a vingança seria impossível, pois o sofrimento necessário para superar o da pessoa seria o de vários anos, por exemplo, o Henry sofreu abusos por anos e mais anos, e isso o tornou uma pessoa ruim, e ele via pessoas felizes, pessoas que não sofriam abusos, pessoas com mãe legais, realmente felizes. Uma pessoa que sofre e vê a outra feliz se sente em uma situação inferior, é normal que sofrer sozinho seja pior que sofrer em grupo, mas se outras pessoas sofrerem mais que ela, o próprio sofrimento poderá parecer amenizado, como se fosse uma visão relativa, ele irá querer causar muita dor, muita morte, muito medo, tudo que possa torná-lo uma pessoa muito feliz na visão relativa, mais feliz que as pessoas que tortura. Esse prazer que a pessoa sente com o sofrimento alheio, então, seria uma felicidade momentânea relativa, um alívio para a própria dor.

— Você quer dizer que o motivo para alguém ser sádico é aliviar a própria dor?

— É, algo assim, mas pode simplesmente ser para aumentar a sua própria felicidade relativa, se sentir melhor, mais sortudo, vendo alguém na pior, irá sentir prazer.

— Mas se fosse assim, todo mundo iria matar e torturar pra se sentir melhor e aumentar sua felicidade relativa, não? — Percebeu o erro na teoria da menina.

— Não, ela tem outras alegrias, essa é apenas mais uma, a de ver os outros sofrerem, e elas sabem das consequências se elas matarem e torturarem, e sabem que não compensaria, o que evita muitos assassinos em série, mas uma pessoa que não tem nada a perder, e nem uma alegria, como Henry Lee Lucas, ele não tem motivos para não fazer isso, pode ser sua maior diversão, e não tem nada a perder. — Ela tapou o buraco da ideia.

— Você é uma menina inteligente, mas suas teorias são muito erradas, isso tudo são fatores, mas não podem ser generalizados, muitas pessoas sofrem, sofrem e sofrem, e ao invés de desejar que outras pessoas sofram o que elas sofreram, elas desejam que ninguém passe pelo que elas passaram, deseja o bem delas, algo diferente do mal a que foram submetidas, e acabam se tornando extremamente altruístas.

— O que é altruísta mesmo? — Ela ainda tinha algumas falhas de vocabulário.

— Alguém que gosta de ver as outras pessoas felizes, o contrário de sádico.

— Ah sim. Você tem razão, eu estou errada, mas para algumas pessoas, isso se aplica sim.

— Sim, se aplica, faz sentido em parte. Mas você acaba me explicando o que te leva a ser como é. Você não é feliz?

— Não sou feliz? — Repetiu a pergunta.

— Você não é feliz, pode não ser deprimida, mas uma pessoa que não se importa com nada não pode ser feliz, se você não sente, você não sorri, e de um jeito ou outro, mesmo que inconscientemente, você irá desejar o que disse, ver os outros sofrerem.

— O que o senhor disse faz sentido, talvez eu nem perceba, mas seja muito infeliz.

— Mas para você tanto faz, não é isso? — Ele deduzia o que estava dentro daquela mente.

— Sim. — Ela balançou a cabeça, indiferente à ideia.

— Preciso saber sobre o seu nariz quebrado, já arrumaram. Mas, não doeu?

— Doeu.

— Não se importou?

— Não, eu resisto a dores facilmente, é só uma sensação.

— Então é indiferente à dor assim como é ao mundo?

— Sim, acho que sim, é uma sensação ignorável, más sensações são ignoráveis.

— Você tem que ser cuidada, fico impressionado por ter conseguido montar seu perfil tão rápido. — Estava muito surpreendido, realmente tinha feito um excelente trabalho, conversando de igual para igual para entender sua paciente.

— Por que tenho que ser cuidada? Eu não farei mal a ninguém, mesmo que você tenha razão, não sou idiota e não quero ser presa.

— Isso será mais forte que você, a gente identificou seu problema cedo, e você precisa ser tratada logo, para que não haja problemas posteriores.

— Você tem certeza de que está certo? Como espera me tratar?

— Tentaremos desenvolver sua capacidade de se importar, “a indiferença é a pior monstruosidade que uma pessoa pode sentir”, e se você só tem indiferença a tudo, você é um monstro, ou acaba se tornando um.

— Eu não sou um monstro, nem me tornarei um.

— Você tem duas opções, ou se trata, ou será tratada, acusada de ser um perigo.

— O que você quer dizer?

— Ou você aceita o tratamento que faremos com você, que é suave, ou teremos que te enviar para um sanatório, vulgo hospício.

— Você tá me chamando de louca? — Mantinha-se calma o tempo todo.

— Não louca, sociopata de rank 10, o que é muito pior.

— Então vai me internar em um hospício caso eu não faça o que mandam. — Ficou em silêncio um pouco. — Está bem, está bem, eu farei como quiserem e não tenho nenhum problema, e mostrarei isso. E você não vê que tenho 7 anos? Pare de falar como se eu fosse uma adulta e tivesse cometido um crime terrível. — A garota reclamou, o doutor realmente a tratava como se fosse uma semelhante em vivência e vocabulário. Os livros que lia a ensinavam sobre a vida adulta, das piores coisas até as mais simples, sabia bem como funcionava uma delegacia ou um traçado de perfil psicológico, ainda mais levando em conta o gosto que tinha por livros de Serial Killer, o fato de ler livros maduros ao invés dos bons infantis ajudava a seu desenvolvimento, mas nunca chegou a ter inocência.

— Então temos um trato?

— Sim, mas eu tenho uma exigência: sem remédios.

— Está certo, ainda teremos que falar com seus pais sobre seu perfil psicológico.

— Camilla Hitokaze, 7 anos. Demonstra-se em um estágio avançado de sociopatia, não demonstra sinais de alegria ou humor, exceto quando em contato com alguma forma de violência ou sofrimento alheio, tendo muitos sintomas de depressão, mas sem aparentemente se importar mesmo com isso. Adquiriu uma personalidade extremamente sádica devido à falta de humor, demonstrando prazer ao ver pessoas sendo submetidas a alguma dor ou sofrimento, principalmente quando é violência feita por suas próprias mãos. Demonstra uma inteligência extremamente avançada, não só para sua idade, grande capacidade de dissimular sentimentos, mas pouco uso da habilidade por achar que não faz nada de errado sendo como é. É total a ausência de culpa ou remorso, nunca se arrepende do que faz, tem certeza de que está sempre certa, com uma convicção extremamente forte, é incapaz de perceber outros pontos de vista. Dissimula quando percebe que não adianta insistir, mas mantém suas certezas dentro de sua mente, planejando e guardando, mantém a calma sempre, não se exalta exceto quando lhe parece conveniente, como foi visto na briga com Kushira. É extremamente egocêntrica, vive no próprio mundo, mesmo tendo noção das coisas, ela não se importa com o resto, exceto ela mesma, não dando nenhuma importância às pessoas ou acontecimentos, exceto quando necessário. Encontra na ficção o seu meio de entretenimento para escapar do tédio diário, já que não se interessa por nada e nada a diverte, porém mantém um gosto completo por ficções violentas, já que demonstra completa felicidade ao ver um semelhante sofrendo, como ela mesma diz, sente uma “alegria relativa”, por saber que ela está melhor que a pessoa em agonia. Tem complexo de superioridade e se acha melhor que as outras pessoas,
menosprezando-as, é necessário que se cure sua falta de interesse no mundo externo, sua depressão, e sua falta de motivação constante, para depois desenvolvermos seu lado humano e seus sentimentos, porque demonstra não ter nenhum. — Satoshi lia o papel com certo choque, mas mantinha a calma, na sala do psiquiatra, a filha ouvia tudo, sentada em um canto, Gabryella também estava lá, sentada e calada, muito preocupada. — Como pode? Isso é sério, doutor? — Ele parecia não acreditar.

— Você é um irresponsável, senhor Satoshi, deixando essa menina ler todas aquelas porcarias, ela não tem idade para se interessar em histórias de necrofilia e tortura, o que tem na cabeça? O
desenvolvimento dela foi comprometido com ideias horrendas. — Hiroya dava uma bronca com voz exaltada, não podia tratar bem um pai que dava “Henry e Toole” para uma criança de 7 anos ler.

— Achei que um simples livro não fosse um problema, é apenas ficção.

— Pois a ficção não ajudou em nada sua filha. E pelo que ela disse, ela está sempre lendo, e gosta dos violentos, isso em excesso é um perigo, principalmente para alguém instável como ela. Sabia que ela sofre de depressão? Quero que façam exames de sangue nela mais tarde, para identificar a quantidade de hormônios da felicidade, a
serotonina, só pra confirmar, se estiver baixa a quantidade, deveremos dar injeções do hormônio sintético.

— Você jurou que não ia haver drogas! — Camilla se intrometeu, com o tom tranquilo.

— Oh, é verdade, mas isso não é droga, falei de drogas mesmo, sedativos e coisas pra te deixar controlada, esse hormônio é diferente, vai te deixar feliz.

— Eu não preciso ser feliz. — Dessa vez sua voz se exaltou.

— Cala boca, Camilla. — Satoshi mandou, deixando sua autoridade visível, ela ficou quieta imediatamente, obediente, olhava para o doutor com a expressão totalmente vazia.

— Talvez se o senhor ajudar no tratamento, ele possa ser um sucesso com maior facilidade, conte pra ela que é pro bem dela.

— Ouviu Camilla? Ele tem razão, é melhor você obedecer às
recomendações, por enquanto é inofensiva, mas pode acabar tendo distúrbios maiores mais tarde. — Olhava para a filha, depois virou o rosto pro psiquiatra.

— Não, ela não é inofensiva por enquanto, ela já está em um estágio perigoso, e essa depressão combinada com sociopatia pode gerar resultados terríveis. Pense, se para ela, tanto faz, que diferença fará pra ela se lhe derem 100 yens para dar um tiro em alguém? Ela ainda tem consciência de posse, dinheiro, todo tipo de bens, uma das poucas coisas para o qual liga são os bens materiais, você entende?

— Entendo, o que devo fazer?

— Primeiro leve ela pro exame, traga os resultados aqui, e não deixe ela ler nada, arranje uma atividade pra ela, faça com que ela converse com os colegas na escola, faça amigos, se relacione.

— Isso é papel da professora, eu não venho à escola.

— Sim, eu já avisei pra ela, sua filha irá melhorar, ela irá ficar bem, e não haverá perigo, tudo ficará como devia ser. — Se virou para a mãe, que se manteve calada o tempo todo. — E a senhora deve participar mais da vida de sua filha, a senhora nem sequer participou da conversa.

— Sim senhor. — Ela estava aérea, desesperada por dentro.

Camilla foi levada pelos pais para uma clínica, fizeram o exame e foram embora. No dia seguinte, Gabryella foi com sua filha suspensa da escola buscar o resultado enquanto Satoshi trabalhava, ela levou o papel até o psiquiatra, com a menina ao lado.

— Então como eu imaginei, o nível de serotonina é muito baixo, ela realmente vai precisar dos hormônios.

— Onde posso conseguir?

— Espere só um pouco. — Tirou uma folha no seu bloco de receitas, escreveu “Autorizo Camilla Hitokaze a utilizar substâncias que possam aumentar o nível de serotonina”.

— Mãe, isso é anti-depressivo, ele só falou que eram hormônios pra eu não recusar, pro nome não parecer feio, claro pra aumentar meu nível hormonal. — Ela conseguia ler a receita de onde estava.

— Fique quieta Camilla, ele só quer seu bem. — Ela não acreditava muito no que dizia, mas acreditava no trabalho de um profissional, se a filha tinha poucos hormônios, deveria corrigir isso, mesmo que fosse com anti-depressivos.

— Tá. — A obediência dela quanto aos pais era algo útil, se ela fosse rebelde, o doutor conheceria o verdadeiro significado de sofrer. — Mas eu juro que vou matar você, doutor.

— Cale a boca, filha. — Gabryella deu um tapa no braço da filha, que se calou.

— Aqui está, vão na farmácia “Lar da Saúde”, lá com certeza tem. — Hiroya não respondeu à ameaça, entregou a receita na mão de Gabryella, que guardou, agradeceu e foi com a filha para comprar o remédio.

No papel tinha escrito a autorização, as doses diárias que deveriam ser tomadas, por injeção, coisa que não seria problema pra garota, e a autorização do médico.

Ela levou a menina para o local, mostrou a receita para o lojista, que foi buscar nos fundo da farmácia, era um antidepressivo líquido que vinha em um frasco, as doses deveriam ser de um tampa cheia, mas precisava ser colocado diretamente na veia, por injeção, pra trabalhar com maior efetividade.

A garota foi tratada com o remédio, cuidados especiais, teve os livros e filmes de horror tirados de sua vida, e teve seu tempo ocupado com esporte e estudo, incluindo estudos de informática e programação, aos quais se dedicava bastante. Acabou ficando bem, conseguiu fazer duas amigas na escola, embora a relação não fosse íntima, já parecia ter algum interesse em suas vidas, chegava até mesmo a perguntar coisas a elas, ela realmente começava a se socializar, não entrava de cabeça na vida social escolar, mas se relacionava com as pessoas normalmente, um resultado surpreendente em apenas 2 semanas, parecia mais feliz, uma nova pessoa. O dia em que fez suas amigas foi o principal
acontecimento da nova fase, quando realmente pareceu estar totalmente curada, tomando 2 injeções todo dia.

TEXTO DE LORD CANDELÁRIA

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