Deixe um comentário

Temporadas no Abismo — Capítulo 1: A Menina do Cutelo

— O que acha, querida? — Gabryella e sua filha estavam almoçando em um restaurante, um prato especial com peixe e algas, na verdade, dois, um para cada uma, mas em porções diferentes, a pequena garota já tinha comido metade da comida. Gabryella era uma mulher com cerca de 1,70 de altura, morena clara de cabelo longo, uma brasileira casada com o programador japonês, Satoshi Hitokaze, era extremamente bonita, e seus negros e
brilhantes olhos colaboravam muito, tinha um nariz perfeito, nem grande, nem pequeno, nem achatado e nem pontudo, apenas perfeito, devia ter uns 35 anos, embora aparentasse 25, possuía um corpo escultural, definitivamente, uma mulher linda.

— Eu não quero mais comer, eu me sinto mal, não me faça comer mais. — Camilla estava com uma cara horrível, como se estivesse muito enjoada.

— O que filha? O que sente?

— Enjoo, não é bom, mãe, acho que vomitar, vem comigo pro banheiro, por favor.

— Oh deus. — Gabryella se levantou, segurando a mão da filha, levando-a ao banheiro, a pequena menina estava um pouco tonta, andando e cambaleando, se segurando pra não vomitar. Ela pôs a cabeça na pia, levantada pela mãe, e pôs tudo para fora, enquanto a mãe olhava, com muito nojo, querendo vomitar também, mas se segurando firmemente pra não fazer isso, segurando a filha.

— Eu não vou parar. Bleergh. — Vomitou novamente, várias vezes, e cada vez que vomitava, ficava mais tonta e vomitava novamente, seu vômito se tornava cada vez mais líquido, à medida que o alimento em seu corpo acabava.

Gabryella não fez nada além de ver o que estava acontecendo, e segurar a filha na altura da pia, a pia estava quase totalmente entupida com a imundície orgânica, e a menina ficava cada vez mais tonta, e com a visão escurecida, até desmaiar, sem nada dentro do corpo, muita fraca.

— Oh meu Deus. — A mulher a segurou antes dela cair no chão, mas não sabia o que fazer. — Satoshi está viajando, o que eu faço com você? Oh meu Deus, oh meu Deus, eu preciso achar um hospital. — Correu com a filha nos braços para fora do banheiro, chamando atenção de todos. — Por favor, alguém me ajuda? Um telefone? Por favor, minha filha desmaiou vomitando por causa de sua maldita comida. — Podia-se perceber certa raiva na sua voz.

Um garçom a atendeu imediatamente, embora não fosse exatamente sua função.

— O que ela comeu, senhora? — Sushi com algas acompanhando.

— E o que ela comeu antes de você chegar aqui? Bem, vamos ligar para um médico, se somos realmente os responsáveis, nós precisamos pagar os custos médicos. Mas a senhora tem um plano de saúde?

— Sim, um plano Coração Dourado. Ela comeu um hambúrguer no Burger King ontem. — Ela falou enquanto o garçom pegava um telefone que ficava na parede do restaurante, todos no local espiavam a mulher com uma criança nos braços, mas ninguém ousava falar uma palavra, pelo menos não em voz alta.

— Hambúrguer? Bem, garanto que essa é a real razão do problema, pegue o telefone. — Ele não podia acreditar que sushi fosse mais perigoso que um hambúrguer, ela pegou o telefone e apertou os números de um hospital próximo coberto pelo seu plano de saúde familiar, colocando a garota nos braços fortes do paciente funcionário que a assistiu, ele realmente colaborava como podia.

— Alô?

— Alô. O que a senhorita deseja? — Era uma voz feminina atendendo do outro lado.

— Sou Gabryella Hitokaze, minha filha desmaiou de tanto vomitar, quero fazer uma consulta agora mesmo, eu não sei o que causou, mas eu preciso de uma consulta agora!

— Senhora Hitokaze, você pode vir agora mesmo, temos um médico para sua filha, você pode vir. — A atendente foi realmente eficiente, com a mulher e a filha de Satoshi Hitokaze, não poderia ser diferente, ele poderia
destruir a vida dela e de qualquer outro em qualquer momento em que quisesse. Neste ponto, Camilla abriu seus olhos, falando fracamente, olhando o homem que a segurava.

— Quem é você? — Ela estava realmente mal, movendo a boca muito devagar, exausta.

— Camilla? — A mãe desligou o telefone e pegou a filha nos braços do garçom, segurando nos próprios. — Você está bem?

— Não, por favor. Eu preciso ir a um hospital, eu continuo com nojo, e… o que é esse cheiro? — Sentiu um cheiro de peixe frito bastante desagradável, vomitou no colo da mãe, o corpo dela estava muito quente também.

— Oh meu Deus, eu estou indo. — Ela saiu do restaurante, abriu o carro, pôs a filha lá dentro, sentou na frente do volante, e rapidamente acelerou até o hospital.

Do carro para a sala de exames foram apenas dois passos, tudo seria fácil para uma Hitokaze. Mas a garota estava realmente mal, tinha febre, vomitou várias vezes mais, uma no carro, e duas no elevador, onde as náuseas cresceram muito, o vômito na roupa da mãe convenceu todo mundo sobre a emergência, mas o fato de ser uma mulher milionária convencia mais ainda.

— Veja, isso é uma infecção alimentar, sua filha certamente comeu algo mal cozido, e foi infectada por estalaficocos. O que ela comeu nos últimos dois dias? — O doutor Hatori perguntou após examinar a criança com vários aparelhos, estava sentada na frente da mãe e do doutor, em uma cama, aquela sala de exames possuía uma mesa com algumas coisas, incluindo uma garrafa de soro, mas Camilla já estava com uma bolsa de soro ligada diretamente nas suas veias, segurada por um tripé.

— Comeu um hambúrguer no Burger King. — Os olhos da mãe estavam muito perturbados, e estava cheia de vômito no vestido, uma visão nojenta, mas preocupada demais para se preocupar com um detalhe tão pouco importante, embora desagradável.

— Hum, é possível que tenha sido. Mas você fez algo você mesma para ela?

— Ah, sim, lamen, com ervas.

— Lamen? Ervas? Nós podemos e devemos fazer um exame para descobrir o que causou isso, mas será bastante desagradável e prolongará a estada de Camilla aqui. Ou nós podemos apenas cuidar dela até que sua saúde melhore, nesse caso, seremos rápidos e amanhã nós a liberaremos, mas a primeira opção é estritamente mais aconselhável.

— Sério? — Camilla falou, animada achando que logo poderia voltar para caso e ficar tudo bem, mas vomitou muito líquido junto com suas palavras, o líquido amarelado foi todo para a roupa branca do doutor, bastante nojento, mas aceitável para um médico, ele agiu naturalmente, mesmo que vômito fosse uma das piores coisas para
se ter na roupa.

— Sua filha definitivamente ainda não está boa, mesmo sem febre, eu preciso dar soro, ela vai descansar, é provável, certo, que ela irá vomitar muito mais, ela pode vomitar em um balde, então você vai precisar ficar aqui, ela é muito pequena, e está fraquíssima devido a tudo que botou para fora, então não conseguirá manipular bem o recipiente, e pode até derramar tudo em si mesma, se ela vomitar, ela pode beber o copo de
soro, além do que está sendo posto direto no sangue dela, já temos um copo de 400 ml e uma garrafa de 5
litros, então basta dar pra ela. Camilla não deve ir no banheiro para vomitar, isso a cansaria, ainda mais tendo que levar o tripé, o balde é confortável, e portátil, embora seja desagradável a ideia de vomitar nele, acho que a ideia de vomitar já seja ruim por si só. Eu vou ali e voltarei com um antibiótico, ela deve estar cheia de bactérias e vai precisar disso. Mas vai querer fazer o exame para descobrir os detalhes sobre o problema?

— Sim, eu quero fazer o exame, eu preciso saber o que causou isso e processar o causador.

— Mas mãe, eu quero ir embora. — A garota estava exausta, com uma expressão péssima, e uma voz que soava pessimista, infeliz e cheia de lamentação.

— Fica quieta, a gente tem que saber o que é, e é mais seguro que fique aqui até termos certeza de que está bem. — Dessa vez Gabryella foi severa, falando brava com a filha, coisa que não costumava fazer.

— Voltarei com os antibióticos, são e… – O doutor falou, mas foi interrompido por uma frase gritada e aguda da criança enferma.

— Por favor, me traz o balde que eu vou vomitar de novo. — Ela segurou a própria boca, tentando segurar a porcaria que queria pôr pra fora, Hatori pegou o balde do chão e colocou bem perto da cabeça dela, de lado, ela se virou um pouco e vomitou, mas dessa vez, um líquido avermelhado. — Minha garganta queima. — Vomitou de novo, puro sangue dessa vez, o desespero começava a tomar conta de sua mente, chegava a achar que seu corpo estava se dissolvendo por dentro e sendo jogado fora.

— Isso é pior do que pensei, vou pegar o antibiótico imediatamente. — Ele correu rapidamente da sala, era uma emergência, dava para ver traços de preocupação em sua face, era um bom médico, que se importava de verdade com seus pacientes.

— Queima, queima, eu não quero mais. Mamãe, salva-me, eu vou morrer, por favor, não me deixe só, Deus, eu odeio isso. O que é isso? Rena? É você? Hoho, você veio me visitar, que bom, minha amiga, venha, abrace-me, mamãe não se importa comigo. — Ela começou a ter visões, em seus olhos era possível ver que estava delirando, estava vendo uma estranha forma humana imaginária que não falava nada, como se fosse real, a garota ria bastante, bem baixo, já que nem mesmo conseguia fazer algum som alto, estendendo o braço para a amiga imaginária, uma garota japonesa de cabelo castanho com aparência de 8 anos, um pouco gorda e redonda, com bochechas rosas, uma “visão fofa”.

— Querida, o que, o que você tá dizendo? Quem é Rena? – A mãe estava confusa, com medo, tocou na testa de Camilla, estava quente como fogo, uma febre violenta, o médico retornou à sala com uma bolsa cheia de remédios, e um ajudante dessa vez, mas assim que ela os avistou, falou antes deles. — Doutor, ela está delirando, faça algo, ela tá vendo uma amiga imaginária.

— Por favor mamãe, não seja má para a Rena, ela é minha melhor amiga.

— Espere, eu a anestesiarei, imagino que tenha piorado com a desidratação. — Ele abriu a bolsa e pegou uma injeção e um pequeno vidro com conta-gotas. — Camilla, me dê seu braço, eu preciso usar isso em você para te
curar.

— O que? Não, eu sei que você quer me sedar, eu não quero isso. — Ela abraçou a imagem ilusória de Rena, ao lado de sua cama. — Rena, fale pra eles.

— Inferno, quem é Rena, Camilla? — Gabryella segurou os braços da criança com força, mas ela se debateu com tudo para escapar, e mordeu o braço da mãe, fazendo com que ela recuasse, sangrando dolorosamente onde os dentes finos e afiados penetraram.

— Me largue, me deixa em paz, eu não quero morrer. Vocês querem me matar, me larga. – Ela gritava, enquanto o doutor segurava firmemente seus braços, resistindo às mordidas que recebia da pequenina, e injetando a anestesia.

— Bobos! Eu te odeio, me larga, mãe, não te perdoarei por isso, Rena, Rena. — Ela caiu rapidamente, com a substância em suas veias fazendo rápido efeito.

— Oh meu Deus, oh meu Deus. O que fizeram com minha filha? — Gabryella chorava desesperada, borrando toda a sua
maquiagem.

— Calma, por favor, ela está com uma febre violenta, está delirando, apenas a sedamos pra conseguirmos trabalhar direito, e fazê-la melhorar.

— Eu estou morta? Deus? Onde estou, eu sempre acreditei que não havia vida após a morte. Não! Eu vou pro Inferno, é isso que toda religião diz, mas eu sou uma criança, eu não mereço algo tão horrível, eu nunca fiz mal a ninguém. Por que? Será como naquele horrendo filme, Jigoku? Não quero ser queimada e nem espetada. — Ela estava dormindo, era apenas um sonho, a anestesia não era tão forte, não a deixou totalmente inconsciente, acabou gerando um sonho lúcido, que parecia mais real que um sonho normal, como se fosse uma projeção astral, um estranho sonho em que ela se encontrava na cama de seu quarto em casa, sentada, com a porta aberta, por onde Rena entrou, mas sentia um profundo desconforto. — Rena, você vai pro Inferno comigo? — Ela estava chorando sem parar, mas a chegada de sua suposta amiga era um pequeno alívio, pelo menos não ia estar só.

— Oi Camilla, nós não iremos pro Inferno, isso é só um jogo, você vê? — Rena se aproximou, levantou sua mão, uma serra elétrica apareceu instantaneamente, e ela a segurava firmemente, como se fosse do peso de uma pena.

— O que, Rena? O que é isso? — A visão de Camilla era assustadora, a garota com a motoserra tinha uma expressão diferente da de sempre, parecia estar louca, e com aquilo na mão, não era nada bom.

— Lembra daquele filme que você assistiu em que um cara matava um monte de gente com uma dessas aqui? — Ela ligou a serra, barulhenta, sorrindo docemente.

— Sim, eu lembro, o Massacre da Serra elétrica, muito legal — A pequena gostava de filmes de terror, principalmente os violentos, mesmo sendo bem nova, um gosto herdado do pai Satoshi, mas aquilo não soava nada bem para o momento, nada bem, sentia uma forte vontade de sair correndo, mas era como se algo a segurasse por dentro.

— Você lembra onde me conheceu?

— Sim, em “A Açougueira”, um filme dirigido com a ajuda da Hitonomi, empresa do papai, você é a protagonista, a menina que tenta escapar da serial killer que mata as pessoas com um cutelo. Oh meu Deus, você não é real, você é apenas a menina do filme, de onde eu te tirei? Por que te chamei de amiga? Isso é um sonho, você não existe. — Ela caiu na real, a febre a os vômitos a tinham deixado confusa e sem noção de realidade, misturando-a com ficção e delírios.

— Você está louca, amiga, então agora, Massacre! — Ela moveu sua serra em direção à “amiga”, tentando fazê-la em pedaços, a garota pulou da cama e correu para escapar, mas foi perseguida, com uma menina louca correndo atrás dela com uma serra elétrica para esquartejá-la.

— Por que uma serra elétrica? Por que não um cutelo como em “A Açogueira”? Por favor, não me mate, pare, o que você tem? Sou uma boa menina, por favor. — Ela estava realmente com medo, mesmo sabendo que não era real, lágrimas corriam pelo seu rosto, desesperada. — É um sonho? É um sonho ruim? Oh Deus, salve me, se você
existe, me salve. — Corria, chorando sem parar, afogada em medo, com o som alto da serra elétrica.

— Volte aqui Camilla, volte, vamos brincar juntas, minha amiga, venha aqui, não irá doer nada. — Rena gargalhava enquanto corria com aquele objeto enorme e cortante girando em direção à pobre criança, que chorava
e gritava sem parar, imersa em total desespero e pânico. A maníaca parecia se divertir muito, e corria muito rápido, obrigando sua “presa” a correr mais rápido, de algum modo, elas corriam no nada, em um estranho vácuo
sem fim, onde apenas as duas eram visíveis, tocáveis e escutáveis, mas era como se fosse real, um horror real.

— Não. — Camilla via tudo escurecer aos poucos, enquanto corria o mais rápido que podia, não sentia cansaço, apenas medo, um medo tão intenso que não poderia descrever, o barulho da serra, as risadas da sua amiga mais infiel, sentiu aquilo, até que tudo escureceu de vez e não sentiu mais nada, nem a própria existência, como se estivesse morta.

TEXTO DE LORD CANDELÁRIA

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: