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O Significado da Doutrina da Mão-Esquerda ou Kaulamárga

KALI

Sendo:
Tantra Vidyá. Terceira parte.
Por:
Anuttara Kápilanáth Kuláchárya

Como um corolário lógico para a segunda característica comum a todas as formas de tantrismo, i.e. a atitude positiva em relação à vida e ao mundo, assim como a filosofia de se transformar o gozo mundano (bhoga) em um meio de auto-realização, o que se segue é uma introdução – em palavras claras – ao que equivocadamente denominou-se doutrina Kaula da mão-esquerda (vámasádhaná)[1], no qual os aspirantes espirituais fazem uso do Ritual dos 5Ms ou pañchamakára: o consumo de carne (mámsa), vinho (madya), a cópula sexual orientada (maithuna), grãos tostados (mudrá) e peixe (matsya) com o objetivo de mudar sua atitude para com estas substâncias e realizar o sámarasya[2] de Shiva e Shakti no interior de cada kaulika[3]. Aquilo que é falso e egoisticamente tido como profano e portanto ignorado pela ortodoxia hindu, é utilizado na prática espiritual da Tradição Kaula (kaulasádhaná) como objeto de adoração. O Tantra ofereceu esta prática para o propósito especial de libertar a mente do aspirante (sádhaka) das falsas distinções de bem e mal artificialmente criadas pela sociedade.

O Tantra enfatiza não a utilização física dos 5Ms, mas a mudança de atitude perante os elementos que compõem o ritual. Por exemplo, os praticantes da tradição dakshnácára, que seguem a linha rájasika sádhaná, substituem as cinco coisas proibidas – ou 5Ms – por outros elementos[4]. Portanto, uma pessoa pode mudar sua atitude para com estes assim chamados elementos profanos sem mesmo utilizá-los, seja no contexto ritualístico ou não. De fato, a utilização dos 5Ms é expressamente proibida – segundo a tradição – ao pashu (homem ordinário dominado pela rotina e pela cobiça) que ainda não mudou sua atitude perante eles. O Kulárnavatantra (II: 124) diz: A pessoa ignorante (pashu) não deveria cheirar, ver, tocar ou beber vinho e carne; o uso [destas substâncias] é eficaz apenas aos kaula-sádhakas.

Entre os 5Ms do caminho da mão-esquerda, o sádhaná que envolve a união sexual (maithuna) é o mais significante, pois a transformação ou transmutação da energia sexual desempenha o papel mais importante no desenvolvimento saudável das faculdades internas do sádhaka. Este sádhaná muito mal compreendido – e muito usurpado – requer um espaço considerável para uma explanação plena de seu significado. Eu discuti detalhadamente esse sádhaná em meu artigo Kaulasádhaná & a Sublimação Sexual. Aqui, uma breve referência a este aspecto da prática será suficiente. De acordo com o Tantra, desejo (káma) é a principal forma de energia (shakti) nos seres humanos. Não é possível, muito menos desejável, destruir essa energia. A energia libidinosa (káma-shakti), sublimada ou canalizada de forma a fluir para canais mais elevados, pode ser direcionada para mais alta expressão de amor, criatividade estética e auto-realização. Portanto, o Tantra, conforme exposto pela doutrina Kaula, apresenta um método ou Yoga para sublimação deliberada da energia sexual.

Este Yoga tântrico capaz de sublimar as energias sexuais, resumidamente, consiste de dois princípios.

Primeiro, o sádhaka deve cultivar uma atitude saudável em relação à atividade sexual que, para ele, deve ser algo sagrado e divino. Esta mesma atitude deve ser cultivada em relação a sua parceira sexual (sádhika, náyiká, dútí, dombí etc.) e seu órgão sexual (yoni). Em outras palavras, o sádhaka deveria ver sua parceira como a encarnação divina da Shakti; a sádhika, por sua vez, deveria ver seu parceiro como a encarnação divina de Shiva. A adoração fálica do shaivismo – a adoração do linga como um símbolo divino – também se destina a cultivar esta atitude. Essa mudança de comportamento em relação ao sexo serve como um antídoto para neutralizar a sensação venenosa de que o sexo é pecaminoso e perigoso. Este é um passo essencial no processo de sublimação sexual.

Segundo, o sádhaka deve sentir um intenso amor por sua parceira sexual e executar o coito (maithuna) como uma expressão deste amor, e não uma atividade sexual com gozo deliberadamente sensual (bhoga). Através da prática ritualística contínua, é possível separar a atividade sexual de sua sensualidade instintiva e torná-la um veículo da verdadeira e mais elevada expressão do amor. Isso, por um lado, aumenta a alegria sexual e por outro, transforma o sexo em amor. A prática do amor em direção ao parceiro sexual é um meio de se dominar o sexo por sublimação.

Os tântricos vaishnavas, contudo, utilizam apenas o maituna, o intercurso sexual, evitando os outros makáras, especialmente a carne e o vinho em suas práticas. Eu me refiro a Tradição Sahajiyá. Isso se dá ao fato de que a tradição vaishnava é inclinada a conduta puritana, associando o consumo de carne ao conceito de ahimsá (não-violência). Neste sentido, sua conduta também inclui alimentação pura (sattivica), evitando alimentos impuros (tamasicos). Vinho e carne são um exemplo. Por um lado, enquanto o adepto vaishnava se encontra inclinado ao ideal de pureza sexual e celibato no usual sentido dado ao termo, não retirando o sexo da lista puritana, como estamos acostumados a ver, por outro, o tântrico vaishnava não está capacitado a adotar a utilização de carne e vinho, muito provavelmente porque ele ainda se encontra condicionado pelas proibições vaishnavas. Esta atitude discriminativa adotada pelos tântricos vaishnavas pode obstruir o processo de ascensão completa acima das barreiras egoístas e artificiais do bem e mal. Os sádhakas das tradições tântricas cuja orientação é shaiva-shakta não possuem esta desvantagem ao utilizarem todos os cinco makáras.

A utilização dos quatro makáras, i.e. o consumo de carne (que simboliza o controle da palavra), vinho (que simboliza o conhecimento intoxicante), grãos tostados (que representam à conquista do estado de concentração e o domínio sobre a mente) e peixe (que simboliza o controle das correntes vitais – vayús – que fluem pelas nádís do sádhaka) cumprem a função de eliminar a distinção artificial e egoísta entre o divino e o profano, entre o bem e o mal. Mas a cópula sexual (que representa a conquista das vibrações primordiais do ato de criação), além de ser benéfica acima de qualquer caminho, cumpre a tarefa de sublimar as energias sexuais dinamizadas pelos outros makáras.

Os rshís[5] tântricos perceberam que, sendo a energia sexual sublimada, maravilhas poderiam ser feitas, e é por isso que o tantrismo vámácára – e em especial a Escola Sríkulácára[6] – coloca ênfase neste aspecto especial do sádhaná. Portanto, em relação aos outros makáras, o maithuna tem especial relevância.

Abhinavagupta (975 – 1025 d.C.), um dos maiores adeptos tântricos da Índia, fez uma considerável modificação nas práticas da Tradição Kaula, retirando o consumo de peixe e grãos tostados do maior ritual desta escola, denominado Cakrapújá, dando ênfase ao consumo de carne, vinho e a cópula orientada. Veja meu artigo Em Busca das Raízes Tântricas do Hatha Yoga.

Notas:

– – – – – – – – – – – –
[1] Váma significa esquerda. Sádhaná significa prática espiritual. Portanto, pratica espiritual do caminho da mão-esquerda. A Tradição Kaula (que encontra-se no ápice das escolas tântricas) foi genericamente denominada como doutrina da mão-esquerda porque o termo vámá tanto significa mulher quanto esquerda, uma clara referência à posição da mulher à esquerda do homem na hora do ritual.

[2] O equilíbrio de Shiva e Shakti, os princípios masculino e feminino. No Budismo, Upáya e Prajñá. Frequentemente este equilíbrio é concebido em termos sexuais, mas ele é sentido dentro do próprio kaulika. A tradição tântrica ensina que a completa compreensão deste equilíbrio leva a não-dualidade.

[3] Adepto Kaula. Para uma descrição das características dos adeptos Kaulas veja Mahánirvánatantra, XI e Kulárnavatantra, II: 17.

[4] O vinho é substituído por água de coco, a carne por gengibre, os grãos torrados por arroz ou trigo, o peixe por incenso e o coito por duas espécies de flores: keraví, símbolo do linga (falo), e aparájitá, símbolo da yoni (vulva).

[5] literalmente, aquele que vê.

[6] A mais celebrada Escola Kaula ativa até os dias de hoje.

FONTE: Fernando Liguori ::: Śaivismo Trika da Caxemira

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