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Caso o Demônio Morresse Deveria Deus Fazer um Outro? — Robert Green Ingersoll

The Devil (1899)

Há pouco tempo atrás eu preparei um discurso sobre “Superstição”, no qual, entre outras coisas, eu disse que o mundo Cristão não poderia negar a existência do Demônio; que o Demônio era realmente a pedra chave do arco, e que retirá-la era destruir o sistema todo.

Uma grande maioria dos clérigos respondeu ou criticou essa afirmação. Alguns desses ministros sustentaram suas crenças na existência da Majestade Satânica, enquanto que outros realmente negaram sua existência, mas alguns, sem expressar suas próprias opiniões, disseram que outros acreditavam, não na existência de um demônio pessoal, mas na hipótese de que o Demônio assim aludido era simplesmente a personificação do mal.

Quando eu li essas respostas eu pensei nessa linha de Heine: “Cristo cavalgou sobre um asno, mas agora asnos cavalgam sobre Cristo”.

Agora as perguntas são, primeira se o Demônio realmente existe, segunda se as Sagradas Escrituras ensinam a existência do Demônio e e dos espíritos impuros, e terceira, se esta crença em demônios é uma parte necessária daquilo que é conhecido como “Cristianismo ortodoxo”.

Agora, de onde veio a ideia que o Demônio existe? Como ela foi produzida?

Medo é um artista, um escultor, um pintor. Todas as tribos e nações, têm sofrido, têm sido o esporte e a vítima do fenômeno natural, tendo sido golpeado pelo relâmpago, envenenado por ervas daninhas, oprimido por vulcões, destruído por terremotos, acreditado na existência de um Demônio, que era o rei – o governante – de inumeráveis demônios menores, e todos esses demônios têm sido desde eras imemoriais considerados como inimigos dos homens.

Ao longo das margens do Ganges vagaram os Asuras, os mais poderosos dos espíritos do mal. Seus negócios eram as guerras contra Devas – isso quer dizer, os deuses – e ao mesmo tempo contra os seres humanos. Lá, também, estavam os ogros (bicho papão), o Jakshas e muitos outros que matavam e devoravam seres humanos.

Os Persas inverteram isso, e com eles os Asuras eram bons e os Devas maus. Ormuzd era o bom – o deus –, Ahriman o demônio – e entre o deus e o demônio estava empreendida um perpétua guerra. Alguns dos Persas pensavam que o mal finalmente triunfaria, mas outros insistiam que o bem seria o vencedor.

No Egito, o demônio era Set – ou, usualmente chamado, Typhin – e o bom era Osisis. Set e sua legião brigaram contra Osíris e contra a raça humana.

Entre os Gregos, os Titans eram os inimigos dos deuses. Ate era o espírito que tentava, e tal era o seu poder que em uma época ela tentou e extraviou o deus dos deuses, mesmo Zeus em si.

Essas ideias a cerca de deuses e demônios frequentemente mudavam, porque nos dias de Sócrates um daimon não era um demônio, mas um anjo guardião.

Nós obtivemos nosso Demônio dos Judeus, e eles o tomaram dos Babilônios. Os Judeus cultivaram a ciência da Demonologia, e em uma ocasião era acreditado que haviam nove tipos de demônios: Belzebu, príncipe dos falsos deuses das outras nações; o Pythian Apollo, príncipe dos mentirosos; Belial, príncipe dos criadores de discórdia; Asmodeus, príncipe dos demônios vingativos; Satan, príncipe dos bruxos e magos; Meresin, príncipe dos demônios aéreos, que causava tempestades e pragas; Abaddon, que causava guerras, tumultos e incêndios; Diabolus, que conduzia ao desespero, e Mammon, príncipe das tentações.

Acreditava-se que demônios e feiticeiros frequentemente viviam juntos e mantinham o que eles chamavam “Sabbats”; isso quer dizer, orgias. Era também conhecido que feiticeiros e bruxos tinham marcas nos seus corpos que tinham sido impressas pelo Demônio.

Certamente esses demônios foram todos feitos pelas pessoas, e nesses demônios nós encontramos a parcialidade de seus criadores. Os Europeus sempre representaram seus demônios como negros, enquanto que os Africanos acreditavam que os deles eram brancos.

Então, foi acreditado que as pessoas com o auxílio do Demônio poderiam assumir qualquer forma que desejassem. Bruxos e feiticeiros foram transformados em lobos, cães, gatos e serpentes. Essa mudança para a forma animal era extremamente comum.

No período de dois anos, entre 1598 e 1600, em um distrito da França, o distrito de Jura, mais do que seiscentos homens e mulheres foram julgados e sentenciados diante um juiz de terem se transformado em lobos, e foram condenados à morte. Este é somente um caso. Houve milhares.

Não há tempo para contar a história dessa crença no demônio. Ela tem sido universal. As consequências têm sido terríveis além da imaginação. Milhões e milhões de homens, mulheres e crianças, de pais e mães, foram sacrificados sobre o altar dessa crença ignorante e idiota.

Certamente, os Cristãos de hoje em dia não acreditam que os demônios dos Hindus, Egípcios, Persas ou Babilônios existiram. Eles pensam que aquelas nações criaram seus próprios demônios, exatamente o mesmo que eles fizeram com seus próprios deuses. Porém os Cristãos de hoje em dia admitem que, por muitos séculos, Cristãos acreditaram na existência de incontáveis demônios. Que os Pais da Igreja acreditavam tão sinceramente no Demônio e nos seus demos como em Deus e seus anjos, que eles estavam tão seguros sobre o inferno quanto do paraíso.

Eu admito que as pessoas fizeram o melhor que puderam para avaliar o que elas viram, o que elas vivenciaram. Eu admito que os demônios assim como os deuses foram naturalmente produzidos – o efeito da natureza sobre o cérebro humano. A causa de fenômeno encheu nossos ancestrais não somente com admiração, mas com terror. O milagroso, o sobrenatural, era não somente acreditado, mas também aguardado.

Um homem caminhando na floresta à noite – na fraca luz da lua – tudo incerto e difuso – vê uma forma monstruosa. Uma arma é levantada. Seu sangue se congela, seus cabelos se eriçam. Na escuridão ele vê os olhos de um monstro – olhos que brilham com maldade. Ele sente que algo está se aproximando. Ele volta e com um brado de horror corre nos seus calcanhares. Ele está amedrontado e olha atrás. Gastou seu fôlego, tremendo de medo, ele alcança sua cabana e cai na porta. Quando ele recobra a consciência, ele conta sua estória e, certamente, os filhos acreditam. Quando eles se tornam homens e mulheres eles contam a estória do seu pai tendo visto o Demônio para seus filhos, e então os filhos e os netos não somente acreditam, mas pensam que sabem, que seu pai – seu avô – realmente viu um demônio.

Uma velha mulher sentada ao fogo a noite – uma furiosa tempestade – ouve o lamentoso canto do vento. Para ela isso se torna uma voz. Sua imaginação foi tocada, e a voz parece pronunciar palavras. Dessas palavras ela constrói uma mensagem de um aviso de um mundo invisível. Se as palavras são boas, ela ouviu um anjo; se elas são ameaçadoras e maldosas, ela ouviu o demônio. Ela conta isso a suas crianças e elas acreditam. Elas dizem que a religião da mãe é boa o bastante para elas.

Uma moça sofrendo de histeria entra em um transe – tem visão do mundo do inferno. Um sacerdote salpica água benta sobre sua pálida face, dizendo: “Ela tem um demônio”.

Um homem grita um terrível brado; cai ao chão; espuma e sangue brotam de sua boca; seus membros se convulsionam. Os espectadores dizem: “Isso é obra do demônio”.

Por todas as eras pessoas têm trocado sonhos e visões de medo por realidades. Para elas o insano estava inspirado; epilético estava possuído pelo demônio; apoplexia era a obra de um espírito imundo.

Por muitos séculos pessoas acreditaram que elas tinham realmente visto um fantasma maldoso da noite, e tão completa era essa crença – tão vívida – que elas fizeram pinturas delas. Elas sabiam como eles pareciam. Elas desenharam e entalharam suas formas, seus chifres – todas as suas deformidades maldosas. Agora, eu admito que todos esse monstros foram naturalmente produzidos. As pessoas acreditavam que o mal tinha sua terra nativa; que o Demônio era um rei, e que ele e seus capetas empreenderam uma guerra contra os filhos dos homens. Curiosamente boa parte desses demônios foi feita de deuses decaídos, e, naturalmente boa parte de muitos demônios foi feita de deuses de outras nações. Então com frequência os deuses de umas pessoas eram os demônios das outras.

Na natureza existem forças opostas. Algumas dessas forças trabalham para o que os homens chamam de bem; outras para o que eles chamam de mal. Apoiado nessas forças nossos ancestrais colocaram anseios, inteligência e projeto. Eles não podiam acreditar que o bem e o mal vinham de um mesmo ser. Então apoiado no bem eles colocaram Deus; apoiado no mal, o Demônio.

Conclusão

Eu admito que há muitas boas e belas passagens no Velho e Novo Testamentos, que dos lábios de Cristo brotaram muitas pérolas de generosidade – de amor. Todo verso que é verdadeiramento terno é um tesouro em meu coração. Cada pensamento, atrás do qual está uma lágrima de ternura, eu aprecio e amo. Porém eu não posso aceitá-lo todo. Muitas elecuções atribuídas a Cristo chocam minha mente e coração. Elas são absurdas e cruéis.

Tomada do Novo Testamento a infinita selvageria, a malevolência sem respaldo do sofrimento eterno, o absurdo da salvação pela fé, a ignorante crença na existência de demônios, a imoralidade e crueldade da expiação, a doutrina da não resistência que nega às virtude o direito de auto-defesa, e como seria glorioso saber que o restante é verdade! Comparado com esse conhecimento, como tudo mais na natureza seria pequeno e enrugado! Que êxtase seria saber que Deus existe; que ele é nosso pai e que ele ama e cuida dos filhos dos homens! Saber que todos os passos que os seres humanos seguem, mudam e ventilam como eles podem, conduzem aos portões da paz imaculada! Como os corações se emocionariam e palpitariam ao saber que Cristo foi o conquistador da Morte; que em seu sepulcro todos os monstros devoradores foram zombados e batidos para sempre; que desde aquele momento a tumba tornou-se a porta que se abre para a vida eterna! Saber que isso transformaria o desgosto em satisfação. Pobreza, fracasso, desastre, derrota, poder, terra e riqueza tornar-se-iam coisas sem significado. Colocar seu bebê sobre seus joelhos e dizer: “Meu e meu para sempre!” Que alegria! Estreitar a mulher que você ama em seus braços e saber que ela é sua para sempre – sua embora os sóis escureçam e as constelações desapareçam! Isso é o bastante: Saber que os amados e mortos não estão perdidos; que eles ainda vivem e amam e esperam por você. Conhecer isso seria tudo ao que o coração poderia se render. Além dessa felicidade não se pode ir. Além disso não há nada que se almeje.

Quão bela, quão encantada, A Morte seria! Como nós almejaríamos ver sua caveira sem frescor! Que raios de glória fluiriam de sua cega foice, e como o coração almejaria pelo toque de sua mansa mão! A mortalha se transformaria em uma túnica de glória, a procissão funerária um lar de colheita e a sepultura marcaria o fim da tristeza, o início da Felicidade eterna.

E ainda seria de longe melhor que tudo isso fosse falso do que: tudo do Novo Testamento fosse verdade.

É de longe melhor não ter paraíso do que ter paraíso e inferno; melhor não ter Deus do que Deus e Demônio; melhor descansar em eterno sono do que ser um anjo e saber que aqueles que você ama estão sofrendo eterna dor; melhor viver uma vida livre e amorosa – uma vida que termina para sempre na sepultura – do que ser um escravo imortal.

O mestre não pode ser grande o bastante para fazer doce a escravidão. Eu não tenho ambição de me tornar um servo alado, um escravo alado. Melhor o sono eterno. Porém eles dizem, “Se você desiste dessas superstições, o que você deixa?”

Deixe-me agora dar lhes a declaração de um credo.

DECLARAÇÃO DA LIBERDADE

Nós não temos falsidades a defender
Nós queremos fatos;
Nossa força, nosso pensamento, nós não desperdiçamos
Em ataques vãos.
E nós nunca intencionalmente tentaremos
Salvar alguma bela e agradável mentira.
A simples verdade é o que nos pedimos,
Não o ideal;
Nós montamos para nós mesmos a nobre tarefa
De encontrar o real.
Se tudo que há é nada além de escória,
Nós queremos saber e padecer nossa perda.
Nós não estamos dispostos a ser enganados,
Por fábulas de ajuda;
Nossos corações, por sérios conceitos, estão escolados
Para padecer o pior;
E nós podemos permanecer eretos e desafiar
Todas as coisas; todos os fatos que realmente são.
Nós não temos nenhum Deus para servir ou temer,
Nenhum inferno para evitar,
Nenhum demônio com olhar malicioso.
Quando a vida se for
Um sono sem fim pode fechar nossos olhos.
Um sono sem sonhos ou suspiros
Nós não temos mestre sobre a terra –
Nenhum rei no ar –
Sem algemas nós permanecemos,
Sem uma súplica,
Sem um medo da noite vindoura,
Nós buscamos a verdade, nós amamos a luz.
Nós não nos curvamos diante de uma imaginação,
Um vago desconhecido;
Uma força insensata nós não abençoamos
Em tom solene.
Quando o mal vem nós não amaldiçoamos,
Ou agradecemos porque ele não é pior.
Quando os ciclones despedaçam – quando relâmpagos destroem,
Isso é nada só fato;
Não há Deus de cólera que fere
Num ódio sem coração
Atrás das coisas que ferem o homem
Não há finalidade, pensamento, ou plano.
Nós não perdemos nenhum tempo com temores inúteis,
Em medos estremecedores;
O presente vive, o passado está morto,
E nós estamos aqui,
Todos convidados bem vindos à grande festa da vida –
Nós não necessitamos de ajuda de fantasmas e sacerdotes.
Nossa vida é alegre, jocosa, livre –
Ninguém é um escravo
Que dobra em medo os joelhos trêmulos,
E busca salvar
Uma alma covarde de um futuro sofrimento;
Ninguém se humilhará ou rastejará por vantagem.
A preciosa taça do amor nós secamos,
E o vinho da amizade
Agora suavemente flui em nossas veias
Com calor divino.
E então nós amamos e almejamos e sonhamos
Que nos céus da morte há um clarão
Nós caminhamos conforme nossa luz,
Seguimos o passo
Que conduz às alturas da honra imaculada,
Despreocupados da ira
Ou castigo de Deus, ou rancor sacerdotal,
Almejando conhecer e fazer o correto.
Nós amamos nossos semelhantes, nossa espécie,
Esposa, filho, e amigo.
Aos fantasmas estamos surdos e cegos,
Mas nós estendemos
A mão auxiliadora aos aflitos;
Por erguer outros nós somos abençoados.
A chama sagrada dentro do coração
E o brilho da amizade;
Enquanto todos os milagres da arte
Suas riquezas concedem
A mente emocionada e alegre
E apresentam êxtase e banem sofrimento.
Nós não amamos fantasmas dos céus,
Mas carne viva,
Com olhos de paixão tolerantes e sentimentais,
Lábios tépidos e frescos,
E faces com a vermelha bandeira da saúde desfraldada,
O hálito dos anjos desse mundo.
As mãos que ajudam são de longe melhores
Do que lábios que rezam.
Amor é a estrela sempre resplandecente
Que conduz o caminho,
Que brilha, não no vago mundo do êxtase,
Mas sobre um paraíso neste
Nós não oramos, ou choramos, ou nos lamentamos;
Nós não temos nenhum temor,
Nenhum medo de passar além do véu
Que oculta a morte.
E ainda nós perguntamos, sonhamos, e imaginamos,
Mas sabemos que não possuímos.
Nós perguntamos, ainda nada parece saber;
Nós choramos em vão.
Não há nenhum “mestre do show”
Quem irá explicar,
Ou do futuro romper a máscara;
E ainda sonhamos, e ainda perguntamos
Há além da noite silenciosa
Um dia sem fim;
É a porta da morte que conduz à luz?
Nós não podemos dizer.
O segredo sem língua trancado no destino
Nós não sabemos.
Nós desejamos e aguardamos.

Fonte: The Devil (1899), de Robert Green Ingersoll

Um comentário em “Caso o Demônio Morresse Deveria Deus Fazer um Outro? — Robert Green Ingersoll

  1. Muito bom e obg pir isso.

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