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NO PAÍS DAS ÚLTIMAS COISAS

Resumo: a seguinte resenha pretende propor uma possível análise sobre o livro “No país das últimas coisas”, publicado em 1987 por Paul Auster. A obra, que conta a história, através de uma trama envolvente e bem arquitetada, de uma jovem que viaja até um estranho país em busca do irmão desaparecido. É um bom estudo sobre temas como a memória, as relações humanas, a arte e a sociedade de consumo.

“No país das últimas coisas” parece manchete de jornal atual… Mas, felizmente, no caso em questão – no nosso texto –, não se trata disso. “No país das últimas coisas” é o título de um inventivo romance de 1987, do escritor estadunidense Paul Auster. Não se faz a devida justiça ao livro de Auster se ele é lido apenas como um simples romance futurista de ficção científica. Ele oculta em seu interior uma gama variada de leituras que observadores mais incautos não verão. Tentemos, então, desvelá-las…

Desde a adolescência rodeada de livros de grandes escritores da literatura mundial – Poe, Whitman, Cervantes, Kafka, Dostoievski, dentre muitos outros – até os difíceis tempos de juventude, quando trabalhou como tradutor para a língua inglesa de grandes nomes da literatura francesa – Breton, Sartre e Mallarmé, em especial –, Auster construiu uma sólida e ampla formação literária. É com essa formação associada a uma boa dose de criatividade – bem nos moldes da tradição e do talento individual de Elliot – que ele constrói suas narrativas. Seus trabalhos mais conhecidos são os livros da “Trilogia de Nova Iorque”, publicados em 1985 e 1986, e os roteiros que escreveu para dois sucessos do cinema: “Cortina de fumaça” e sua continuação “Sem fôlego”; ambos foram rodados em 1995 e obtiveram grande êxito junto ao público e à crítica. Auster, ainda, dirigiu o segundo filme junto com Wayne Wang, que fora, também, o diretor do primeiro filme. Sucede à “Trilogia de Nova Iorque” o já citado “No país das últimas coisas”.

O livro descreve um tempo e um local distantes. Ou não? O futuro sombrio relatado nas cartas de Anna Blume – a narradora do livro – parece cada vez mais próximo. Imagine que no país de onde Anna envia suas cartas, pessoas vivem do lixo! Futuro distante, não? A escassez lá é frequente! Muito distante, não? Tal sensação de distanciamento espaço-temporal que cada vez mais vai se encurtando não é exclusividade do livro de Paul Auster. Nisso ele se insere em uma tradição que abrange, dentre outras obras, o “1984”, de George Orwell, e o brasileiro “Não verás país nenhum”, de Ignácio de Loyola Brandão. Tradição esta que não permanece restrita à literatura; no mundo do cinema, por exemplo, os recentes “Filhos da Esperança”, de Alfonso Cuarón – com um cenário incrivelmente semelhante ao país do romance de Auster –, e “V de Vingança”, de James McTeigue – com roteiro adaptado a partir de uma famosa comic novel, que mostra uma Inglaterra futurista também semelhante ao país das últimas coisas –, sustentam e exibem perspectivas um tanto quanto sombrias quanto aos tempos que se aproximam. Cabe como informação extra que os enredos de ambos os filmes se passam em datas distantes por volta de vinte anos dos tempos atuais. Ou seja, futuro sim, mas muito próximo. Como, aliás, deixa transparecer o enredo de “No país das últimas coisas”. A data dos acontecimentos narrados não está explícita. Mas é permanente a sensação de que a história que é contada está “logo ali”…

Aliás, a história do livro. Uma jovem de nome Anna Blume parte rumo a um lugar desconhecido em busca de seu irmão William, que antes fora para lá fazer reportagens sobre o local e, simplesmente, sumiu! Através de cartas enviadas por Anna a um amigo (possível amante ou namorado) é que ficamos sabendo dos acontecimentos. A situação encontrada por ela é caótica e próxima do incompreensível: “Basta fechar os olhos por um instante, voltar-se e olhar para qualquer outra coisa, e o que estava diante de você terá desaparecido subitamente” (p.9); “A escassez é frequente e o alimento que lhe deu prazer um dia já não existirá no outro” (p.11); “Porque os que têm um lugar onde morar correm, permanentemente, o risco de ficar sem ele” (p.14); e continua…

Com a vida cada vez mais difícil, quem não morre naturalmente passa a procurar a morte. Corredores – grupos de pessoas que correm juntas na rua cansando-se até o coração não aguentar –, saltadores – pessoas que, do alto de telhados, realizam o Último Salto (o nome já diz tudo) –, fregueses de clínicas de eutanásia – onde o tragicômico Cruzeiro do Prazer é destaque – e sócios dos clubes assassinos – onde se paga para que alguém te mate – são essas figuras.

É na rua, salvando-a de ser atropelada por um bando de corredores, que Anna conhece Isabel. Em gratidão, Isabel convida-a a morar em sua casa. Nessa altura da história, nossa personagem principal trabalha em meio ao lixo das ruas – falaremos sobre a questão do lixo mais tarde – e dorme ao relento. A casa da nova amiga parece-lhe, então, um “porto seguro”. No entanto, o marido de Isabel, Ferdinand, não a recebe bem. Seco e frio de início, agressivo por vezes, só demonstra suas reais intenções depois de certo tempo: “Foi numa dessas noites que Ferdinand atacou, enfim” (p.59); “… ele se estendeu junto a mim e começou a esfregar o áspero rosto em meu pescoço, murmurando que tinha toda razão, sim, e que a gente ia foder…” (p.60). Anna repele-o violentamente e quase o estrangula até a morte. Fato é que o homem amanhece morto – Anna? Isabel? Morte natural? Com o passar do tempo as coisas se deterioram. O estado de saúde de Isabel, literalmente, deteriora-se. Afetada por uma grave doença, a amiga de Anna, em um curto espaço de tempo, vem a morrer. Então, passados apenas dois dias da morte de Isabel, Anna é expulsa da casa.

De novo a rua. Após um período muito difícil, em um dia qualquer, Anna entra na Biblioteca Nacional. Lá moravam várias pessoas. Nossa personagem principal conhece Samuel Farr, morador de um pequeno quarto situado no último andar da biblioteca. Sam – nome pelo qual é chamado por Anna Blume – viera também em busca de William. Não obtivera sucesso nessa missão nem na sua outra, que era enviar reportagens sobre os acontecimentos no misterioso país – missão essa que fora anteriormente de William. Passa, então, a concentrar todas as suas energias e recursos em uma nova tarefa: decide escrever um livro sobre tudo que estava ocorrendo. Nesse momento, os dois forasteiros unem forças. Anna, com algum dinheiro que houvera obtido, e Samuel, com a “moradia”, passam a viver juntos e, posteriormente, têm um relacionamento – “… nas semanas seguintes, acabamos realmente apaixonados” (p.93). Durante os seis meses seguintes – o período do Terrível Inverno –, ambos viveram enclausurados no quartinho e Anna dedicou-se a ajudar Sam na produção do livro. Nessa época, Anna engravidou.

Decidida a comprar um sapato novo, Anna conhece no prédio da Biblioteca Nacional um sujeito de nome Henri Dujardin. Ele a leva até um primo dele, dizendo ser o tal primo um comerciante de objetos usados – dentre os quais, evidentemente, sapatos. Chegando lá, ela descobre toda a farsa. O que, verdadeiramente, funcionava no local era um matadouro humano. Não fosse por uma ação rápida e corajosa, Anna teria sido mais uma vítima de Dujardin e seu primo. Sem pensar demais, nossa personagem principal desvencilhou-se do ataque dos assassinos e jogou-se do alto do prédio onde ficava o matadouro. Com a queda, machucou-se bastante e perdeu o filho que esperava. Levada desacordada e muito ferida para um certo Lar Woburn, recuperou-se lentamente e recobrou a consciência. O tal Lar era um abrigo que, em meio a tantas adversidades, oferecia algum aconchego para os desvalidos; comida, uma boa cama, proteção e um pouco de companhia e solidariedade, ainda que temporariamente – pois a fila de “candidatos” ao Woburn era tão grande, que se fazia necessário que quem hoje tinha proteção,
amanhã desse lugar para outro. A proprietária do abrigo chamava-se Victoria Woburn e com ela cuidavam do Lar Woburn três empregados: Frick, seu neto Willie e uma surda-muda de nome Maggie Vine. Depois da recuperação de Anna, o jovem Willie é mandado até a Biblioteca para encontrar Samuel Farr e comunicar-lhe sobre o acontecido. Chegando lá, porém, ficou sabendo que “irrompera um incêndio na biblioteca aquela tarde, e o telhado já desmoronara” (p.111). A conclusão que se fez óbvia é que, vivo ou morto, Sam jamais voltaria a ser visto. Anna, muito lentamente, vai tentando se conformar com a ideia e passa a ajudar nos trabalhos do abrigo, atuando, principalmente, no cadastro, na admissão e na recepção de novos “moradores”. Infelizmente, com o passar do tempo, o próprio Lar passou a enfrentar sérias dificuldades. Os recursos foram escasseando e os problemas, aumentando. Graças a um homem chamado Boris Stepanovich, o Lar ainda resistiu por um certo tempo. Boris vendia pela cidade objetos pertencentes ao patrimônio do Woburn e, com isso, conseguia dinheiro para o sustento do abrigo. Porém, os objetos a serem vendidos também foram escasseando…

Em meio à solidão e aos tempos ainda mais sombrios que se aproximavam, Anna e Victoria passam a ter um relacionamento físico e emocional. Ele flui por certo tempo, mas, então, Sam reaparece. Em meio a um grupo de indigentes que procurava o Lar – depois de um longo período de dificuldades nas ruas após ter conseguido se salvar do incêndio que devastara a Biblioteca –, de início, nem reconhece Anna. Mas, devagar, para a imensa felicidade dela, recobra a consciência e a saúde e passa a morar permanentemente e a trabalhar no Woburn.

“Mas as coisas não podiam continuar, é claro. Era uma ilusão, como dissera Boris Stepanovich, e nada podia deter as mudanças que estavam por ocorrer” (p.143). A situação se deteriora por total e fecham-se as portas do Lar Woburn, após uma tragédia. Não que esta tenha sido o motivo do fechamento do abrigo – no mais, as coisas não iriam mesmo continuar. Porém, funcionou, diríamos, como a “gota d’água”. O jovem Willie, transtornado com a exumação, feita por alguns policiais, dos restos mortais de seu avô Frick, invade o Lar, mata vários dos residentes que lá se encontravam e termina morto por Sam. Frick morrera repentinamente e fora enterrado no quintal do Woburn, contrariando a lei do país que dizia que os cadáveres deveriam ser levados para crematórios chamados de Centros de Transformação, onde eram queimados para gerar energia.

O que vemos no fim do livro é, com o fim do Woburn, Anna, Sam, Victoria e Boris tentando fugir da cidade, ainda que sem saber bem para onde. Rumo ao desconhecido – “É impossível ter ideia do que nos acontecerá lá fora” (p.157) –, Anna diz a seu amigo, e ao leitor, que, com tempo bom, eles deverão partir na manhã do dia seguinte. Despede-se dizendo: “Tudo o que peço agora é poder viver mais um dia. Esta é Anna Blume, sua amiga de outro mundo. Quando chegarmos aonde estamos indo, tentarei escrever-lhe novamente. Prometo” (p.157). Acaba-se o livro, mas não a história. Continua outra hora, em outro lugar. É o que espera Anna. É o que esperamos nós.

Evidentemente, este é um breve resumo. De forma alguma pretende dar conta de todos os detalhes do livro. Até porque, ainda que assim o quiséssemos, seria impossível, haja vista, exatamente, a riqueza de detalhes e a extrema inventividade do romance de Auster. Assim como os meandros de “No país das últimas coisas”, são inúmeros, também, os aspectos e assuntos que a partir deles podem ser depreendidos, bem como as discussões que possam vir a ser feitas em torno da história de Anna Blume. Mas é fundamental que ao menos alguns desses aspectos, assuntos e discussões sejam suscitados para que possamos realmente pensar criticamente a respeito do livro de Paul Auster.

O principal motivo que leva Anna a escrever é a permanência de suas memórias. Ela não quer que sua experiência se perca: “Não sei bem por que lhe estou escrevendo. (…) Não importa que você não leia a carta. Não importa sequer enviá-la, (…) Talvez se trate apenas disto: escrevo-lhe porque você não sabe nada” (p.10). O que vale é que tudo esteja registrado. Ainda que ninguém venha a ler, a história de Anna estará preservada. Já quase no final do livro, ela diz a seu amigo que caso ele não leia a carta, deve entregá-la aos pais dela. Diz que, ainda que não a leiam, poderão guardá-la como última lembrança da filha. Reforça-se a ideia: importante é que a experiência dela não se perca. Para a própria Anna, o ato de escrita das memórias parece inserir-se naquilo que Walter Benjamin intitulou memória voluntária: não deixando que os acontecimentos lhe escapem, procura compreendê-los melhor e, por que não, sobreviver sem traumas a eles. Em determinado momento, nossa personagem diz que sua “memória tende a se apagar” (p.24); sua luta na direção contrária de tal fato é parte vital na trama de “No país das últimas coisas”.

Com o desaparecimento das coisas no misterioso país – “Categorias inteiras de objetos desaparecem” (p.78) –, a linguagem também se deteriora. Anna conta que tal desaparecimento faz que, com o tempo, as palavras que nomeiam os objetos desaparecidos sejam esquecidas. Lentamente, os vocábulos vão se tornando apenas um amontoado de sons e, por fim, tornam-se ininteligíveis: “A palavra ‘vaso’, para você, já não faz mais sentido que a palavra ‘esplandigo’” (p.78-9). Com muitas palavras tornando-se desconhecidas e incompreensíveis, evidentemente, a comunicação entre as pessoas torna-se muito difícil: “… cada pessoa passa a falar sua linguagem particular e, com a diminuição do entendimento mútuo, torna-se mais difícil qualquer comunicação” (p.79). Em meio a uma situação já caótica, com as pessoas cada vez se entendendo menos, sabe-se lá o que pode acontecer… Por meio dessa linguagem que se deteriora, e da consequente falta de comunicação que se instala, é que vemos a história de Anna/Auster se aproximar de nossa própria história. Conforme já dissemos antes, aquilo que aparece como um futuro apocalíptico em “No país das últimas coisas” parece, infelizmente, cada vez mais próximo de nós. Lembremo-nos que estamos lendo o livro de Paul Auster vinte anos após ele ter sido escrito; “saltando” do livro, cenários aterradores e paranóias em um futuro sem esperança são, hoje, mais que reais. A linguagem deteriorada e a incomunicabilidade entre os indivíduos são apenas dois aspectos desse “novo” mundo. E o que mais aparece sob essa perspectiva no livro? Um exemplo é a grande cidade que se autodestrói: “Lenta e implacavelmente, a cidade parece se autoconsumir, ainda que perdure” (p.25). Outro é o corpo humano vilipendiado. Ainda que tal desrespeito se dê também com os vivos – pela fome, pela miséria, pelo medo –, tal fato é gritante no trato com os mortos. A maioria das pessoas que morre fica jogada na rua mesmo, tem suas coisas totalmente roubadas – “… nunca demora muito para que os cadáveres sejam despojados de seus pertences” (p.21) – e em uma manhã qualquer é levada por caminhões para os já conhecidos Centros de Transformação – crematórios onde, como já se disse, os cadáveres são queimados para gerar energia.

E o lixo? Prometeu-se, anteriormente, falar sobre essa questão. Por que ela merece destaque? Porque ela é fato central naquela que nos parece ser, dentre todas as outras “profecias” de Auster, a que mais assustadoramente se torna real nos dias atuais: pessoas sobrevivendo do lixo. É incrível como a história do livro se parece com a dos nossos dias – ainda que, relembrando, haja entre elas vinte anos de diferença: cidadãos sem nenhuma perspectiva de ganhos para a própria subsistência passam a recolher lixo e a revendê-lo para usinas ou a procurar, em meio ao lixo, objetos de valor para vender por boas quantias. Até os carrinhos utilizados pelos catadores está lá, presente nos relatos de Anna! Quem, por acaso, não conhecer a data em que “No país das últimas coisas” foi escrito, não acreditará ter sido 1987. O futuro cada vez menos distante está lá no enredo para confundir o possível leitor.

A arte, a cultura – stricto sensu –, a erudição e o refinamento que funcionam como “válvulas de escape” para Anna, em meio ao caos e a desesperança, são outro aspecto a se destacar do livro. Sua expedição em busca do irmão, ainda que por poucas e efêmeras vezes, “respira” por esses caminhos. É através dos barquinhos artesanais criados por Ferdinand, do livro de Sam, das antiguidades e da conversa refinada de Boris, ou de seus próprios manuscritos, que alguns poucos momentos de sublimação são vividos por Anna.

“No país das últimas coisas” não é best-seller de mercado. É literatura da melhor qualidade: uma história envolvente e bem contada, um enredo repleto de boas ideias e uma gama de assuntos variados e pertinentes respeitando a inteligência do leitor.

Em tempo, cabe um grande mistério para nós leitores. Ele nos é colocado, em determinado momento, por Auster. Anna diz, lá pelo início do livro, em uma das cartas endereçadas ao amigo: “Nunca me cansava de minhas histórias, dos mundos que costumava inventar para as nossas brincadeiras. (…) Como gostava de mentir para você, de fazê-lo acreditar em minhas histórias…” (p.17).

Será que tudo realmente aconteceu? Ou será que tudo que lemos foi apenas uma criativa invenção de Anna? Aliás, será que realmente importa sabermos se o que Anna relata foi vivido por ela ou não?

Resenha da obra No país das últimas coisas, de AUSTER, Paul. Tradução de Luiz Araújo. São Paulo: Best Seller, 1987.

FONTE: LACERDA, Wagner. Escrever para não Desaparecer. In: SINAIS – Revista Eletrônica. Ciências Sociais. Vitória: CCHN, UFES, Edição n.05, v.1, Setembro. 2009. pp.228-236.

Wagner Lacerda é Graduado em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora (2006). Na época em que fez este resumo ele estava cursando o Mestrado em Estudos Literários na mesma universidade, é, também, ator, diretor e roteirista de teatro.

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