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ONDINE


Não é exatamente uma sereia a protagonista de Ondine, o novo filme do diretor irlandês Neil Jordan (Entrevista com o Vampiro, Café da Manhã em Plutão), mas uma selkie, criatura meio humana, meio foca, do folclore escocês-irlandês. Pelo menos é no que acredita a pequena Annie (Alison Barry), de 11 anos.

Embora presa a uma cadeira de rodas, por conta de sua insuficiência renal, Annie não demora a descobrir escondida na cabana de sua falecida avó a misteriosa mulher que seu pai, o pescador Syracuse (Colin Farrell), puxou do mar com sua rede, certo dia. A mulher (vivida pela cantora polonesa Alicja Bachleda) fala inglês com um sotaque estranho e diz se chamar Ondine, ou “aquela que vem com a maré”.

O tom de fantasia desta espécie de Splash melancólico, evidente na naturalidade imediata com que pai e filha aceitam a ideia de conviver com uma suposta selkie, é facilitado pela ambientação. Parece mesmo um cenário de conto de fadas a península de Beara, no sudoeste da Irlanda, com seus verdes exagerados. Neil Jordan usa um filtro que desbota um pouco a imagem, e ainda assim continua verdíssima a orla banhada pela luz do dia. As noites em Ondine, porém, são bem escuras — prenúncio do mal que se avizinha.

Jordan opta pela fantasia para facilitar a mensagem edificante de sua trama com consciência social.

Syracuse — numa interpretação contida de Farrell — é o típico fracassado. No sotaque irlandês, “syracuse” soa como “circus”, e o personagem diz mesmo que se comportava como um palhaço quando estava embriagado. Hoje Syracuse relembra o padre local (Stephen Rea) de que não bebe há dois anos, mas a prova de abstinência não é suficiente para tirar da ex-mulher a guarda da filha doente. Quando Annie surge em cena, já sabemos que o filme joga com o imaginário das histórias de sereia, e isso gera uma imagem interessante: a menina sobre a cadeira de rodas, astuta mas debilitada, é como a criatura mítica com seu corpo de duas metades inconciliáveis. Ondine aposta até o fim (e até o esgotamento) nessa aproximação entre fantasia e realidade. Os acasos do nosso mundo, ademais, sempre têm muito de inexplicáveis.

Ambientar esse conto de fadas na costa irlandesa é a grande sacada de Jordan, porque a mistura de catolicismo com superstição dos locais não deixa de ser também uma crença na fantasia. Isso diferencia Ondine do grosso dos filmes estilo “quem acredita sempre alcança”. O único ruído acontece no final — a obrigação de explicar o passado de Ondine. Jordan fica o tempo inteiro nos vendendo a ideia de que não há nada de errado em viver erraticamente sob os encantos de um mistério, só para no fim não convencer nem a si mesmo.

Fonte: Omelete

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