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M, O VAMPIRO DE DUSSELDORF

Desconfigure sua percepção de cinema moldada pelos blockbusters hollywoodianos e esteja aberto para a recomendação de um filme alemão, do gênero suspense, produzido em 1931 chamado M, O Vampiro de Düsseldorf, dirigido por Fritz Lang. Ele foi escrito por Lang e sua esposa Thea von Harbou e foi o primeiro filme sonoro de Lang. Ele dirigiu mais de uma dúzia de filmes anteriormente. O filme se tornou um clássico do cinema expressionista alemão e o próprio Lang o teria considerado como sendo seu melhor trabalho.

O filme foi baseado em um caso verídico, do assassino em série Peter Kuerten, na mesma cidade do filme, Dusseldorf, embora o roteiro tenha muitos elementos fictícios, e fala sobre um infanticida que vem aterrorizando as mães daquela cidade (o assassino original não matava crianças). No final da década de 20, o criminoso põe toda a força policial e toda a população em alerta, e começa a ser caçado intensamente, a ponto de chegar a atrapalhar os negócios da máfia local, que passa a procurá-lo sem parar também. Capturado, ele é julgado por um tribunal de criminosos e acusado de ter quebrado a ética do submundo.

A maioria das cenas é muito bem concatenada, e os pequenos detalhes do cenário carregam alguma simbologia e significância para o enredo; recursos de admirável criatividade, uma vez que os filmes atuais carecem do engenho de equilibrar o cenário e seus elementos em conformidade com a trama. No entanto, muitas cenas que envolvem a leitura ou visão de algum texto são paradas justamente para que o espectador consiga acompanhar esse elemento em sua totalidade, algo que nos filmes de hoje não é possível por conta de nossa pressurosa visão de mundo. Outro aspecto positivo, realçado pelo fato de ser um filme preto e branco, M possui uma fotografia
característica do movimento, cheia de sombras e escuridão, e personagens misteriosos, além de
momentos aterrorizantes. Frame parado, imagem suspensa, e o som continua contando a história. Dessa forma foram criados momentos de suspense e tensão inacreditáveis, como na cena em que o assassino, acuado como um rato por seus perseguidores em um canto escuro (imagem parada em sua expressão de medo) ouve o som deles cada vez mais alto, e sabe que será inevitavelmente descoberto. O uso da música In the Hall of the Mountain King, como marca registrada do assassino, que a assobia enquanto anda calmamente pelas ruas, também ajuda a criar um clima de suspense maravilhoso.

Sobretudo o personagem de Peter Lorre, o assassino, que aparece apenas com destaque na segunda metade do filme, é multidimensional e completo. Os olhos do ator, atormentados na cena final, produzem um dos melhores momentos do filme, para não dizer de todos os tempos no cinema, sem exageros. É um momento único e forte, que retrata toda a personalidade ambígua do personagem. Um dos assassinos mais interessantes do cinema: perigoso e ingênuo, medroso, ao mesmo tempo.

O ser humano e
suas emoções são o ponto de suporte da história do filme de Fritz Lang. O diretor retrata o pior do ser humano: sua hipocrisia, arrogância, como o assassino que acaba julgando o assassino, ou a acusação da lei do homem com suas falhas óbvias que deixam assassinos soltos, com a desculpa de que problemas mentais os deixam irresponsáveis pelos seus atos (de qualquer forma, a lei do homem não traz as vítimas de volta, como constata a mãe na maravilhosa e tocante cena final). Seria o personagem de Lorre realmente um doente mental, ou seu comportamento é apenas um artifício para tentar se livrar da pena de morte? A carta que escreve aos jornais dá indícios de que ele faz isso deliberadamente, por exemplo, embora essa questão seja duvidosa.

Independente de questões sobre a perfeição (ou não)
do roteiro, M é sim um filme completo. Além do clima de suspense, promovido evidentemente pela linguagem visual e pelo seu próprio tema sinistro, das maravilhosas interpretações (fora a figura do assassino, o filme não tem outro personagem forte: todos os coadjuvantes têm sua importância para contar a história), do estudo do comportamento humano, sobra ainda espaço para o humor, obviamente que de forma leve, quase invisível. Toda a cena em que os perseguidores da máfia perseguem o personagem de Lorre na fábrica vazia é uma grande piada, no bom sentido. Pelo menos pode ser vista desse jeito. Lá estão os 10 patetas (ou seja lá qual quantidade de pessoas for) tentando caçar um rato das formas mais absurdas possíveis, para não serem descobertos. E quando um deles é capturado pela polícia, momentos depois, a cena do interrogatório pode ser considerada no mínimo irônica: o gato virou o rato.

Fritz Lang, a frente do seu tempo, já acabara prevendo, de forma bem sutil, os problemas que o Nazismo traria para o mundo. M serve, porque não, como uma crítica sutil (não literal) a esse regime ditatorial que, anos mais tarde, aterrorizaria meio mundo. O diretor acabou sendo banido do seu próprio país, indo parar em Hollywood, onde fez alguns ótimos filmes, como o noir Os Corruptos, de 1953, considerado um dos melhores do gênero naquela década. Mesmo assim nunca conseguiu igualar novamente M. Clássico absoluto e necessário para se entender melhor esse cineasta dos mais importantes.

Mais de sete décadas depois, seu filme ainda permanece impressionante.

Enredo:
Um grupo de crianças estão jogando um jogo de eliminação no pátio de um prédio de apartamentos em Berlim através de um canto sobre um assassino de crianças. A mulher põe a mesa para o jantar, à espera de sua filha voltar da escola para casa. Um cartaz de procurado adverte sobre um serial killer predador de crianças, enquanto pais ansiosos esperam do lado de fora de uma escola. Elsie Beckmann deixa a escola com uma bola quicando a caminho de casa. Ela é abordada por Hans Beckert, que está assobiando “Na Gruta do Rei da Montanha” (In der Halle des Bergkönigs), de Edvard Grieg. Ele se oferece para comprar-lhe um balão de um cego vendedor de rua. Ele caminha e fala com ela. O lugar de Elsie na mesa de jantar permanece vazio, sua bola é mostrada rolando longe através de um pedaço de grama, e seu balão está perdido nos fios elétricos.

Na sequência após a morte de Elsie, Beckert envia uma carta furiosa sobre seus crimes para os jornais, a partir da qual as pistas são extraídas pela polícia usando as novas técnicas de impressões digitais e análise grafológica. Sob crescente pressão de líderes da cidade, a polícia trabalha contra o relógio. O inspector Karl Lohmann, instrui seus homens para intensificar a sua pesquisa e verificar os registros de pacientes psiquiátricos analisando aqueles com um histórico de violência contra crianças. Eles encenam ataques frequentes para questionar criminosos conhecidos, interrompendo tanto os negócios no submundo que Der Schränker convoca uma reunião chefes criminosos da cidade. Eles decidem organizar a sua própria caçada, usando mendigos para assistir e proteger as crianças.

A polícia descobre duas pistas correspondentes à carta do assassino no quarto alugado de Beckert. Eles esperam lá para prendê-lo.

Beckert vê uma garota no reflexo de uma vitrine. Depois é frustrado quando a menina encontra sua mãe. Quando encontra uma outra jovem, ele consegue fazer amizade com ela, mas o mendigo cego reconhece o seu assobio. O cego conta a um de seus amigos, que segue o assassino com a ajuda de outros mendigos que ele alerta ao longo do caminho. Com medo de perdê-lo, um jovem faz um grande M com giz (para Mörder, que significa “assassino”, em alemão) em sua mão e esbarra em Beckert, marcando sua roupa.

Os mendigos fecham o cerco. Quando Beckert finalmente percebe que está sendo seguido, ele se esconde dentro de um grande edifício de escritórios antes dos trabalhadores saírem para a noite. Os mendigos chamam Der Schränker, e uma equipe de criminosos chega. Depois de capturar os vigias, eles procuram sistematicamente na construção até chegar ao sótão, finalmente pegando Beckert.

Quando um vigia consegue disparar o
alarme silencioso, os bandidos escapam com o prisioneiro antes da polícia chegar. Um deles, porém, é capturado e eventualmente levado a revelar o propósito da invasão (nada foi roubado) e onde Beckert seria encontrado.

Os criminosos arrastam Beckert para uma destilaria abandonada para enfrentar um tribunal de bandidos. Ele encontra uma grande multidão, em silêncio, esperando por ele. A Beckert é dado um “advogado”, que corajosamente argumenta em sua defesa, mas não consegue ganhar qualquer simpatia do “júri”. Beckert oferece um monólogo apaixonado, dizendo que seus impulsos obrigaram-no a cometer os crimes que mais tarde ele lamenta:
— A culpa não é minha (…). Não posso ajudar a mim mesmo. Não tenho controle sobre isto. Esta coisa diabólica entrou em mim: o fogo, as vozes, o tormento. Esta coisa está lá o tempo todo, controlando os meus desejos pelas ruas, seguindo-me, silenciosamente, mas não posso parar. Isto me possui. Quero escapar, quero fugir de mim mesmo, mas é impossível. Não consigo escapar. Tenho que obedecer. E saio pelas ruas perdido. Quero fugir disso, mas como? Sou possuído pelos fantasmas. Fantasmas de mães e das crianças. Elas nunca me deixam. Exceto quando faço isto. Depois leio os cartazes e vejo o que fiz. Como eu
fiz isso? Mas não consigo me lembrar de nada. Mas, quem irá acreditar em mim? Quem sabe o que é isto para mim? Como sou forçado a fazer. Eu não quero, mas preciso. Alguém me ajude!

O juiz (presidente da associação dos marginais) sentencia:
— O acusado está dizendo que não pode ajudar a si mesmo. Ele diz que tem que matar. Neste caso, ele pronunciou a sua própria sentença de morte. Alguém que admite sua impulsão para assassinar, deve ser extinto como um incêndio. Este homem tem que desaparecer, tem de ser eliminado.

E seu “advogado”, aponta que o próprio “juiz” tem três acusações de totschlag (uma forma de homicídio no direito alemão):
— O meu prezado presidente, que eu acredito ser procurado pela polícia por três assassinatos, disse que meu cliente prenunciou a sua própria sentença de morte. Este impulso, que o leva a matar, prova a sua inocência. Esta obsessão torna o meu cliente um irresponsável. E ninguém pode punir um irresponsável. Digo que este homem está doente. E que não deve ser entregue a um carrasco, mas sim, a um médico. Ninguém vai matar um homem que não é responsável por seus atos. Nem o Estado e nem vocês. O Estado é quem deve tomar as medidas que o tornem inofensivo, para ele deixar de ser perigoso para a sociedade. Todos querem me silenciar. Não permitirei que cometam um crime em minha presença. Eu ordeno que este homem tenha a proteção da lei.

Embora Hans Beckert seja o personagem central do filme, o seu tempo na tela é muito pequeno. Tampouco existe qualquer mistério em torno de sua identidade, pois, é visto logo no início do filme, olhando-se num espelho. A sua fala importante dá-se durante o julgamento, quando se encontra acuado e amedrontado. A maior parte da película é centrada na sua procura. Somente ao final, Hans ganha a oportunidade de se explicar, quando, totalmente lúcido, confessa suas fraquezas e questiona seus perseguidores. Em seu discurso, deixa claro que ele é uma vítima indefesa, enquanto os marginais, ali presentes, tinham tudo para serem diferentes. Eles são livres para cometer seus crimes, enquanto ele não tem escolha. Após sua defesa, Hans Beckert deixa de ser um monstro, para se transformar num homem doente que pede compaixão. Beckert implora para ser entregue à polícia, perguntando: “Quem sabe o que é ser eu?”

Quando a multidão enfurecida está prestes a matá-lo, a polícia chega.

Cinco juízes se preparam para julgar Beckert. Antes da sentença ser anunciada, a câmera corta para as três mães das vítimas chorando. A mãe de Elsie diz que não há sentença que traria de volta as crianças mortas, e que “é preciso manter vigilância em relação às crianças”. A tela fica preta e ela acrescenta: “Todos vocês”.



Confira também: O mal que os homens fazem – Revista de História

FONTES:
M – O Vampiro de Dusseldorf (1931) – Crítica – Cineplayers, por Alexandre Koball, em 20/07/2004

Wikipédia

GOLE NERD: [Resenha – Filme] M, O Vampiro de Düsseldorf

Filme – M – O VAMPIRO DE DÜSSELDORF | VÍRUS DA ARTE & Cia.

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