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Em campo santo: Coletivo EmFoco transforma o Cemitério São João Batista em palco para refletir a respeito da morte

Proporcionar uma experiência artística ou poética tendo o espectador como um dos elementos a integrar a obra, definida como aberta. Com esse propósito, hoje, às 16h, o Cemitério São João Batista, localizado no Centro de Fortaleza, será transformado num grande palco a céu aberto pelos seis integrantes do grupo de teatro EmFoco. O público está convidado a participar de um jogo cênico, no qual artistas, espectadores irão interagir.

O objetivo é construir o espetáculo “Além dos Cravos”, baseado nos fundamentos do Teatro do Real, criado nos anos 1960. O fio condutor da peça, que continua em cartaz durante todos os fins de semana desse mês, é a discussão em torno da morte. Assim, como numa forma de catarse, artistas e público poderão falar sobre suas experiências acerca do tema tabu.

A palavra de ordem do grupo EmFoco, que dará o mote para a construção do espetáculo, é dizer não ao convencional, a começar pela forma de fazer teatro, o tema abordado, a morte, passando pelo próprio espaço, um cemitério. “Além dos Cravos” pretende discutir com o público as experiências vivenciadas com a morte, como por exemplo, como a pessoa via a morte durante a infância, analisa o diretor do espetáculo Eduardo Bruno.

Qual a visão que tinham sobre a morte antes de perder um ente querido? Enfim, são esses questionamentos que serão levados à tona, a fim de ser traduzidos em linguagem artística, que mescla teatro e performance.

O espetáculo é construído a partir de correntes do teatro performático, que trabalham o real e a estética relacional. “A obra é aberta e a gente não quer que o espectador apenas assista ao espetáculo”, reforça o diretor, explicando que a peça é estruturada pelo jogo. Daí, ser fundamental a interferência das pessoas. “A obra só existe na relação com o espectador”, argumenta Eduardo Bruno, esclarecendo que o espetáculo tem o propósito de refletir sobre essa negação que existe em torno da morte. Além de discutir a sua transformação em espetáculo, incluindo o papel da mídia e os enterros que beiram a verdadeiros shows, sobretudo, os de personalidades famosas.

Território experimental

“Além dos Cravos” ganha forma no palco nada convencional, o cemitério São João Batista, um dos mais antigos de Fortaleza, sendo construído a partir de questionamentos que perpassam a condição humana, citando a morte, o suicídio e eutanásia, entre outros.

Eduardo Bruno destaca a utilização do cemitério “como campo de experimentação artística”, sendo considerado um espaço alternativo. A proposta do grupo é apostar na descentralização do espaço teatral, ao optar pela corrente do Teatro do Real. “O artista coloca elementos do real na obra”, diz, justificando o espetáculo se passar no interior de um cemitério.

A concepção da construção do espetáculo como um jogo possibilita a participação do público. “Ele pode interferir”, avisa o diretor. A peça pretende retratar a troca de experiências sobre a morte, ao mesmo tempo em que fala sobre a vida. Os seis atores do grupo de teatro “EmFoco” preparam há um ano e três meses o espetáculo, que começa a ganhar forma a partir de hoje, quando acontece a estreia. Conforme Eduardo Bruno, o espetáculo retrata um pouco a experiência de morte vivenciada por cada integrante do grupo. “É uma autobiografia”, conta o diretor, lembrando da angústia das idas ao cemitério e das memórias de cada um. Agora, é a vez do público dar a sua contribuição para que a obra vire uma experiência coletiva. O autor refuta o termo apresentação do espetáculo, preferindo construção de uma obra inacabada ou aberta, assim como a vida ou a morte. Com esse pensamento, Eduardo Bruno questiona as escritas das lápides. Na sua opinião, a inscrição apenas da data de nascimento e morte é pouco. O espetáculo trabalha com narrativas que incluem a experiência de vida das pessoas e do grupo acerca da morte, mas na perspectiva de um jogo, do lúdico, enfocando esse outro lado de abordar o tema. Eduardo Bruno assina a direção e o roteiro do espetáculo, que conta com a participação dos atores/performers: Dyhego Martins, Georgia Dielle, Lyvia Marianne, Marie Auip, Wellington Saraiva. O figurino é assinado por Igyno Rasmussen e os adereços, Dami Cruz.

Criado em 2009, por alunos do curso de Licenciatura em Teatro do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (Ifce) os integrantes do grupo “EmFoco” identificam-se com o teatro baseado no real e na estética relacional. O grupo estreou com o espetáculo “Preciso dizer que te amo”, realizando em 2011, o segundo trabalho, “Jardim das Espécies”. Seguindo a estética do teatro contemporâneo, a peça foi encenada dentro de uma casa. Desde a segunda peça que o grupo foca suas pesquisas na poética do Teatro do Real, utilizando espaços não convencionais e incentiva a participação do público na construção da obra. “Além dos Cravos”, terceiro trabalho do grupo, é fruto do edital de Artes, de 2011, que o grupo ganhou da Secretaria da Cultura de Fortaleza (Secultofr) e conta com patrocínio do Banco do Nordeste (BNB).

Mais informações

Espetáculo “Além dos Cravos”, do grupo EmFoco. Às 16h, no Cemitério São João Batista (Rua Padre Mororó, 487, Centro). Grátis. O espetáculo continua domingo, 14 e nos dias 20 e 21; 27 e 28

FONTE: Em campo santo – Caderno 3 – Diário do Nordeste

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