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A INFLUÊNCIA DE WELLS NA FICÇÃO CIENTÍFICA BRASILEIRA

Exemplares da revista Ilustração (versão nacional da francesa l’Illustración) já chamavam a atenção nas primeiras décadas do século 20, para o lançamento de novos títulos de H. G. Wells na Europa. Contudo, ele só seria publicado no Brasil a partir de 1938, segundo Laurence Hallewell, em O Livro no Brasil: Sua História (2005).

Certamente, muitos escritores brasileiros tiveram contato com o autor britânico, sob a forma de livros originais em inglês ou de traduções para o francês (quiçá, ainda, edições portuguesas?). Assim se explica que logo em 1925 Gastão Cruls (1888-1959) devesse tanto, no seu romance A Amazônia Misteriosa, a Wells. Filho de um cientista belga radicado no Rio de Janeiro, Cruls foi um autor relativamente importante no seu tempo, e Jacob Penteado considerava A Amazônia Misteriosa a sua obra mais importante. Trata-se de um romance de mundo perdido (subgênero da FC que Wells nunca praticou), em que um médico descobre, após perder-se da sua expedição, a tribo perdida das amazonas, as lendárias mulheres guerreiras. Entre elas o herói realiza uma viagem no tempo (tema que Wells deu à FC com A Máquina do Tempo), mas ao tomar uma beberagem alucinógena amazônica. Não obstante, em entrevista reproduzida em República das Letras, de Homero Senna (1996), Cruls revela a influência de A Ilha do Dr. Moreau (1896) de Wells, na concepção do cientista alemão Prof. Hartmann, que, aliado das amazonas, realiza experiências de alteração de órgãos e membros, sobre seres humanos vivos – os meninos nascidos das guerreiras, tradicionalmente mortos por elas ao nascer e graciosamente dispensados para as experiências de Hartmann.

Alguns dos inúmeros contos de Berilo Neves (1901-1974), publicados em fins da década de 1920 e início da de 30, devem ter sido influenciados por Wells.

O crítico Hepaminondas Martins, seu contemporâneo, reconheceu que Berilo escrevia “uma literatura original na linha de Herbert George Wells e Júlio Verne”. Há uma viagem no tempo (em sonho), por exemplo, em “O Ano 2000”, publicado na coletânea do autor A Costela de Adão (1932).

Monteiro Lobato (1882-1948) reconheceu, em correspondência, que seu romance de 1926, O Presidente Negro ou O Choque das Raças, também inspirou-se em Wells – certamente no que diz respeito à máquina do tempo e na especulação social. Lobato apresenta um visor do tempo, o seu “porviroscópio”, que permite ao protagonista apreciar um conflito racial nos Estados Unidos de 2228, resolvido maldosamente com um cosmético alisador de cabelo que, como “efeito colateral” intencionalmente engendrado em sua fórmula, esteriliza o usuário negro. De publicação vetada nos EUA, Lobato posteriormente acusaria o racismo norte-americano, que ele quis louvar no livro, de hipócrita.

Direta ou indiretamente, Wells também teria influenciado Erico Verissimo (1905-1975), que igualmente apresenta um visor temporal no romance de 1939, Viagem à Aurora do Mundo, agora mirando o passado. Lobato é citado no livro, o que significa que provavelmente foi o brasileiro quem inspirou o autor de O Tempo e o Vento.

Jerônymo Monteiro (1908-1970), que como Neves foi um dos primeiros brasileiros praticantes de FC que se mantiveram constantes dentro do gênero, descobriu a ficção científica por meio da leitura de Wells, de quem era fã incondicional. Ao escrever para o rádio – as mirabolantes aventuras do detetive-engenheiro Dick Peter -, Monteiro adotou o pseudônimo de “Ronnie Wells” em homenagem a ele. A imaginação apocalíptico-evolucionária de Wells, que via o destino da espécie humana dentro do contexto da evolução das espécies e do aspecto físico do universo, manifesta-se em Monteiro com Fuga para Parte Alguma (1961), chamado de “um dos marcos da ficção científica brasileira” pelo crítico Fausto Cunha (que também revela a inspiração para o romance: o conto de Wells, “The Empire of the Ants”). Um visor do tempo aparece no notável conto “O Copo de Cristal” (1969), de Monteiro, assim como havia um visor espacial em “O Ovo do Cristal”, de Wells.

Mas é apenas em 3 Meses no Século 81 (1947) que acontece uma viagem temporal de verdade, como em A Máquina do Tempo (1895) de Wells – mas aqui também sem o concurso da tecnologia: Campos, o aventureiro do tempo, é um brasileiro que, sem tecnologia alguma em 1946, viaja ao século 81 pelo poder mental de um grupo de médiuns que lança seu espírito ao futuro distante. Lá, ele encarna no corpo mutilado de um industrial que acabara de ser atropelado por um ônibus. Chocado com a despersonalização da vida num futuro de superciência que aboliu o amor e pavimentou o mundo de estradas de vidro, esse brasileiro logo põe tudo em polvorosa, tomando o partido de uma minoria de humanos que ainda acredita no velho sistema de emoções e sentimentos. Eles se aliam aos marcianos contra quem a Terra está em guerra, para ameaçar a ordem vigente. Vêem-se pontos de contato com A Máquina do Tempo, mas também com A Guerra dos Mundos (1898) e ainda com When the Sleeper Wakes (1899).

Não obstante Monteiro abrir a história com Campos contando ao seu amigo De Sousa como fora a sua conversa com o próprio Wells na Inglaterra (no ano da morte do inglês, em 1946), o seu amálgama de homenagens ao seu maior inspirador adquire autonomia e voz própria. Confrontado aos romances de Lobato e de Verissimo, em que o herói apenas aprecia o passado distante ou o futuro dos outros, 3 Meses no Século 81 afirma que o brasileiro, senão pela tecnologia mas pelos poderes do espírito e pela independência da imaginação, será um protagonista da história.

H. G. Wells foi a maior influência sobre a ficção científica brasileira, na primeira metade do século 20.

TEXTO DE ROBERTO DE SOUSA CAUSO:

Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance A Corrida do Rinoceronte.

Roberto Causo é um dos brasileiros mais ativos no campo da ficção científica, fantasia e horror (ficção especulativa), tem contos publicadas em 11 países. É autor de Anjo de Dor e Glória Sombria.

Fonte: Terra Magazine – Ficção Especulativa









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