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Cthulhu X Jaime Lannister – Um pequeno conto por George R.R. Martin

“Livros?” perguntou Jaime. “Como livros vão me ajudar em uma luta?”

“Eles podem contar mais a respeito da coisa que você vai enfrentar.” Tyrion jogou o tomo empoeirado sobre a mesa.
“Cthulhu,” disse Jaime pensativo. “Parece o som que homens velhos fazem quando puxam o catarro da garganta.” Ele passou a mão boa sobre a capa dos livros. Eles tinham títulos estranhos, em línguas que ele desconhecia, embora ele não estivesse surpreso que o irmão conhecesse. “Abdul Alhazared,” pronunciou, virando algumas páginas. “Isto é um disparate! Que língua é essa?”
“Uma pergunta justa,” reconheceu Tyrion, “para a qual eu não disponho de resposta. Esses volumes vieram das terras sombrias além de Asshai. Mas aqui, veja isso. Essa é uma tradução, de uma tradução de uma tradução, pelo que vejo.” O anão folheou as páginas até encontrar o que buscava. “E aqui temos ilustrações. Veja! Este é Cthulhu.”
Jaime observou. “Isso?”
“Isso.”
“Ele é tão grande quanto Casterly Rock.”
“Maior. Se Casterly Rock caísse na sua cabeça ele talvez nem percebesse”
“Maldição dos Sete Infernos.” Ainda que tivesse duas mãos, Jaime Lannister não tinha certeza de como poderia enfrentar uma coisa daquelas. “Esses tentáculos… essa coisa parece ter acabado de comer vinte krakens gigantescos, e não teve tempo de engolir tudo.” Ele sentou e começou a espiar os livros. “Talvez se eu tivesse um dragão… “
“Talvez se você tivesse uma centena de dragões.” Tyrion cruzou as pernas na sua poltrona e começou a revirar as páginas de outro livro chamado Mysteries of the Worm.
“Leia. Eu farei o mesmo. Você não tem muito tempo.”
“Creio que não,” Jaime admitiu. “O que devo procurar?”
“Fraquezas.”
 
Jaime observou a imagem de Cthulhu novamente. “Ele tem olhos,” disse. “Um ponto vulnerável, quem sabe. Uma lança enfiada no olho pode matar um dragão.” Mas como diabos ele chegaria até os seus olhos? A coisa era mais alta do que a Muralha. “Uma corda e um gancho… Eu posso tentar escalar a criatura, como se ela fosse uma montanha… mas eu precisaria de duas mãos para subir…”

Ele sabia muito bem que não tinha duas mãos.

“Você poderia ter vinte mãos,” comentou Tyrion sem tirar os olhos do livro que lia. “Os tentáculos iriam te pegar e despedaçar seu corpo como um osso de galinha.” Ele virou outra página. “É melhor começar a ler, se você quiser trepar com nossa irmã novamente.”
Jaime começou a ler. Não era seu passatempo favorito, mas ele sabia que o irmão tinha razão.
Mais ou menos uma hora se passou até ele falar novamente. “Aqui tem algo interessante,” disse. “Elder Signs.” Ele virou o livro para que Tyrion pudesse ver melhor.
O anão coçou o nariz, e ponderou. “Hmmm. Sim. Símbolos de proteção. Isso pode ser muito útil.”
“Posso pintar um desses no meu escudo,” considerou o guerreiro.
“Em seu escudo e em toda a sua armadura,” sugeriu Tyrion. “Mas pintura pode ser apagada facilmente. Tenha esses Elder Signs gravados no metal.”
“De acordo.” Jaime se ergueu e chamou seu armeiro para que ele começasse o trabalho. “Quero também na minha espada,” disse ao homem. “Dos dois lados.”
Tyrion continuou lendo. “Isso é uma pena.”
“O que?” Jaime serviu uma taça de vinho. Ler tudo aquilo dava muita sede.
“Bem, aqui diz que o mero vislumbre desse Cthulhu deixa as pessoas loucas de terror.”
Jaime gargalhou. “Não eu.” Ele deu um gole de vinho. “Às vezes um pouco de terror faz um homem lutar melhor.”
“Estamos falando de muito terror,” explicou o anão. “Não o tipo que faz lutar melhor. Está mais para aquele terror que faz você sujar as calças e ficar no chão babando, entendeu?”
Aquilo realmente complicava a situação. Mesmo coberto de Elder Signs, como ele lutaria com a maldita coisa se não pudesse sequer olhar para ela? “Eu terei de lutar vendado?” ele perguntou ao irmão. “Symeon Olhos de Estrela lutava assim, é verdade, mas ele treinou por anos lutar sem o benefício da visão. Como eu vou encontrar a coisa, para começo de conversa?”
“Bem, imagino que ele tenha um cheiro,” disse Tyrion com uma expressão pensativa. “Mas parece que não é possível matá-lo também.”
 
“E como isso nos ajuda?” perguntou Jaime.

“Bem,” ponderou Tyrion, “não vamos acordá-lo. Se Cthulhu não aparecer, você vence por desistência. Um camarada grande como esse precisa dormir. Eu detestaria perturbar seus sonhos, você não?”
“Nós todos precisamos sonhar,” disse Jaime, com um sorriso amarelo. “Mas temo que alguém irá despertá-lo.”
“Um monte de gente!” o anão confessou. “Estão apostando fortunas no grandalhão.”
Era a mais pura verdade. Quando Jaime caminhou até o campo de batalha designado, próximo do mar, ele encontrou mais de vinte sacerdotes; acólitos com olhos grandes e redondos, mãos com dedos vestigiais, barrigas brancas de peixe, e até uma guelra ou duas. No momento que eles o viram, começaram a cantar em uníssono, “Ph’nglui mglw’nafh Cthulhu R’lyeh wgah’nagl fhtagn” dançando em círculo, com seus membros pálidos erguidos para o céu. Os olhos voltados para as ondas. Nenhum deles prestava atenção em Jaime… até que ele removeu o manto, revelando a armadura dourada coberta dos pés a cabeça de Elder Signs.
Então eles começaram a gritar. Satisfeito, Jaime vestiu o elmo e sacou a espada da bainha.
Os sacerdotes eram lentos e desajeitados, ao menos em terra. Nenhum deles estava armado, e sua lâmina penetrou na pele macia deles como uma faca de pescador, os Elder Signs na lâmina afiada brilhando a cada morte. Sangue verde espirrou para todo lado. O chão ficou escorregadio com escamas e tripas fedorentas de peixe. Logo não havia mais ninguém cantando.
Cthulhu jamais apareceu. Jaime esperou sinceramente que ele estivesse tendo bons sonhos. Quem sabe ele tivesse uma bela irmã também.
“Creio que você venceu esta,” disse Tyrion, quando o sol despontou no horizonte. Não havia mais ninguém para contestar.
“Vamos reclamar nosso prêmio. Você não vai acreditar em quanto vou ganhar por ter apostado em você irmão.”
 
 

Sobre o Autor:

LORD KRONUS
LORD KRONUS

Admirador do Oculto e cinéfilo. azerate666@hotmail.com Confira mais textos deste autor clicando aqui

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