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Mundo do prazer: Fetiches ultrapassam os limites das quatro paredes e ganham espaço na internet, em casas noturnas e na moda


Os ombros femininos encantavam o escritor Machado de Assis. Uma saia subindo displicente a revelar parte do joelho provocava furor em Nelson Rodrigues. José de Alencar homenageia os pés femininos em trecho de A pata da gazela. Partes do corpo, roupas e acessórios ajudaram a compor as histórias mais sensuais da literatura mundial. Mas o fetiche não faz parte apenas da ficção. Pés calçados em altíssimos saltos ou calcinhas de algodão que remetem à imagem da Lolita de Vladimir Nabokov também povoam o imaginário de personagens da vida real.

Uma pesquisa da terapeuta carioca Deise Gê, feita pela internet com 1.500 homens entre 18 e 60 anos, mapeou os principais elementos fetichistas do brasileiro. O primeiro são os calçados e os pés. Depois, as vendas para os olhos.

Mas é bom não confundir: fetiche e fantasia sexual são diferentes. Fetiche está relacionado a utensílios, lugares e partes do corpo que, mesmo sem ter relação direta com sexo, causam excitação. Já a fantasia pode incluir um fetiche ou não. De origem francesa, a palavra significa “objeto animado ou não ao qual se atribui poder sobrenatural ou mágico e ao qual se presta culto”. Para a terapeuta sexual Márcia Bittar, o conceito remete a uma fixação. “Depois que a pessoa realiza uma fantasia, passa para a próxima. Já o fetiche é para a vida toda”, explica.

No século XIX, o médico alemão Richard von Krafft-Ebing definiu fetichismo como a associação do desejo ardente com a idéia de certas partes do corpo ou alguns artigos do vestuário feminino. Sim, feminino.

Para estudiosos do assunto, o fetiche é mais comum entre homens. No livro Fetiche – moda, sexo e poder (ed. Rocco), a americana Valerie Steele revela que os homens têm alguns fetiches com frequência duas vezes e meia maior do que as mulheres. “Isso não quer dizer que as mulheres sejam menos interessadas.
Significa que elas não parecem desejá-los ardentemente da mesma forma”
, ressaltou. De fato, os fetiches mais comuns saem das mentes masculinas.

Uma pesquisa da psiquiatra e sexóloga Carmita Abdo, da Universidade de São Paulo, feita com mais de sete mil entrevistados, aponta que 10,7% das mulheres e 15,4% dos homens fazem uso regular de fetiches. “Eles ajudam a fugir da realidade e manter uma boa performance”, diz.

Na Europa, a estética fetichista, influenciada por adornos sadomasoquistas, está na moda. Mas se por lá o conceito vai bem, no Brasil o termo ainda soa como perversão para muitos. Segundo especialistas, o limite entre a “saudável obsessão” e a perversão é o momento em que o fetichista não tem mais prazer se não houver o objeto de sua devoção na transa. “Se o cara não consegue gozar caso a mulher não vista a roupa de enfermeira, por exemplo, isso já se tornou patologia”, esclarece Márcia Bittar.

Há revistas internacionais especializadas, como High Heels (Saltos Altos), D-Cup (O Troféu D) e Erotic Lingerie (Lingerie Erótica). No Brasil, os sites fetichistas são vários. O maior deles é o www.feticheclub.com, no qual os internautas procuram parceiros para realizar seus desejos. Criado em 1996, o portal tem 25 mil sócios que pagam R$ 25 por mês para ter acesso a fotos, textos e fóruns de discussão. O webdesigner Alexandre Leite de Almeida, 34 anos, criador do site, conta que a maioria dos usuários (homens) tem entre 25 e 40 anos. “O que os internautas mais procuram são as fotos de pés. Assim como a bunda, eles são a paixão nacional”, compara.

A julgar pela enorme quantidade de sites de podolatria (como se chama a veneração pelos pés), Almeida tem razão. Depois das nádegas e dos órgãos genitais, eles estão entre os preferidos. Há, inclusive, casas noturnas dedicadas a eles. ISTOÉ visitou uma delas, a Valhalla, em São Paulo, e constatou: em vez de paquerar em casas noturnas ou bares, muitos homens preferem passar a noite beijando e fazendo massagens e carícias em pés de desconhecidas. A securitária Débora Lady Feet (nome de guerra usado pela moça), 38 anos, e o webmaster Alex D., 39 anos, se conheceram na internet e se casaram, unidos pelo delírio fetichista. Alex criou um concurso virtual de pés, o Feet Lover Model, para apontar as mais belas extremidades inferiores. Débora participou do desafio. A princípio, travaram contato apenas por e-mail. Com o tempo, eles se encontraram pessoalmente e descobriram que, além da paixão por pés, tinham outros pontos em comum. Hoje, o casal mantém um portal sobre podolatria e Débora tem centenas de pares de sandálias e outros calçados – muitos escolhidos pelo marido. “Enquanto a maioria das mulheres prefere usar saia justa para destacar o bumbum ou decotes para valorizar os seios, prefiro um belo par de saltos”, conta.

Apesar de a podolatria ser o tipo mais comum de fetiche masculino, dentro desse universo há de tudo. De lingeries e espartilhos a acessórios e práticas como a amarração (bondage) – o fetichista pode usar cordas, lenços, algemas e elementos que sirvam para imobilizar o parceiro, sem machucá-lo. O designer paulista Ézio Lorenzetti, 31 anos, é adepto. Gosta de amarrar e ser amarrado e costuma usar gravatas e meias-calças. “O fator surpresa dá um toque a mais na transa. Uma vez amarrei uma menina na primeira noite. Ela ficou apaixonada e passou a me perseguir”, lembra.

Em muitos casos, o fetiche pode ser confundido com simples predileção. Entre as mulheres, mãos másculas e uniformes de soldado, bombeiro e guarda são os fetiches que mais fazem sucesso. Segundo Deise Gê, na cama elas gostam mesmo é de falar e ouvir, mais do que de ver. Algumas, porém, surpreendem. É o caso da atriz Brenda Lígia, 26 anos, que se sente atraída por homens acidentados. “Não sei o que isso significa. Talvez seja o desejo de cuidar da pessoa”, arrisca.

Certa vez, uma amiga da atriz contou que um colega estava com o braço engessado. “Fiquei com ele só por causa disso”, recorda. O fetiche de Brenda não é um caso isolado. Há sites para gessólatras ou pessoas que gostam de mulheres e homens engessados. Um deles traz uma enquete para identificar que parte do corpo os internautas preferem ver imobilizada. Dos que responderam, 42% preferem o pé coberto até o joelho, 38,9% gostam da perna toda com gesso, 14,5% só querem saber de braços inteiramente durinhos. Muita gente pode estranhar, mas no mundo do fetiche essa não é a regra. Qualquer preferência é respeitada. De acordo com Márcia Bittar, satisfazer fantasias e fetiches, na maioria dos casos, só traz benefícios para a relação. “Se os dois gostarem ou pelo menos não sofrerem, é saudável. Às vezes, as pessoas que se permitem esses exercícios descobrem potenciais que não conheciam”, garante. Em tempos de recessão na cama, a criatividade é bem-vinda. Desde que venha, evidentemente, com o devido consentimento dos envolvidos.

http://www.istoe.com.br/reportagens/9193_MUNDO+DO+PRAZER?pathImagens=&path=&actualArea=internalPage

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