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Marquês de Sade: A FILOSOFIA NA ALCOVA – (La Philosophia dans le boudoir)

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PREFÁCIO À EDIÇÃO ORIGINAL
Habent sua fata libelli. Os maus livras também têm seu destino. A obra que estamos em vias de entregar ao público chocará, sem dúvida, aos leitores menos avisados. A crueza das cenas de deboche e a violência dos ataques a todos os princípios da moral consagrada abalam mesmo ao espírito mais habituado a leitura fortes. A depravada orgia da imaginação do famigerado Marquês é tamanha que ninguém o superou até agora e sua obra é, ainda hoje, o melhor documento dos desvarios a que pode atingir a mente humana. Nada ele respeita. A religião, a moral, os costumes, os mais puros sentimentos de família a amizade, os nobres impulsos do coração humano são vilipendiados por este espírito doentio e degenerado.
Aqueles que tiveram oportunidade de se informar sobre a patologia do espírito humano, os que se interessam pelo estudo das anormalidades sexuais, não estranharão, evidentemente, este pesadelo monstruoso. Para estes, a presente obra valerá como um texto para estudo. Nenhum sexólogo, nenhum psiquiatra, poderá ignorar este documento. Aí está nossa justificação, ao
publicá-lo.
Ainda mais. Para os leitores e mesmo para os inexperientes, esta leitura, estamos certos, jamais será perniciosa. O espírito são repelirá sua brutal pornografia e sua álgida libidinagem. Quem dispuser de um sólido patrimônio moral repudiará, automaticamente, as elucubrações extravagantes e infantis do autor e, certamente, robustecerá suas crenças e seus princípios ante a insanidade de seus cínicos argumentos. Aliás, para invocar ainda uma verdade consagrada: é preciso conhecer o mal para saber evitá-lo.

Quem foi, entretanto, o Marquês de Sade?
Donatien Alphonse de Sade nasceu em dois de junho de 1740. Contava quatro anos quando foi viver em companhia de sua avó em Avinhão. Três anos mais tarde, passou a morar com um tio que o educou até 1750, época em que foi enviado ao colégio Luis-le-Grand, em Paris. Ao sair do colégio, ingressa na Cavalaria Ligeira. Chega logo a alferes do Regimento Real e em seguida a capitão do 7° de Cavalaria, com o qual participa, na Alemanha, da Guerra dos Sete Anos.
Regressa a Paris em 1763 e no mesmo ano se casa por imposição da família.
Aqui começa o drama. Sade ama, na realidade, a irmã daquela que lhe destinam e seus futuros sogros, percebendo isso, internam-na num convento.
O casamento realiza-se, entretanto.
Revoltado, Sade se entrega ao deboche – em companhia de conhecidos libertinos, como o Duque de Fronsac e o Príncipe de Lamballe. Em consequência, mas por motivo não perfeitamente esclarecido, é preso e internado em Vincennes por dois meses. Até 1768 decorre sem novidade sua existência. É então que ocorre o célebre caso de Rosa Keller, prostituta ou simples mendiga que Sade sequestra numa propriedade sua e a quem sevicia, chegando mesmo a feri-la em várias partes do corpo com uma navalha.
Segue-se outro período de tranquilidade até 1772: o Marquês vive em suas propriedades da Provença. Sua mulher vem reunir-se, então, a ele e comete a imprudência de trazer consigo a irmã recém saída do convento. Sade não resiste. Faz a côrte à sua cunhada e como esta resiste, embora o ame, engendra um estratagema para rendê-la. Em Marselha, acompanhado de seu fiel criado, compra uma caixa de bombons e neles mistura cantárida. Vai depois a um meretrício e serve as guloseimas às rameiras que, excitadas pela droga, entregam-se à maior orgia, promovendo grande escândalo. Era o que desejava.
De posse de uma ordem de prisão que ele mesmo faz questão de obter de um seu amigo membro da justiça, apresenta-se à sua cunhada e declara-lhe que foi em consequência de sua recusa que praticou aquilo e que se submeterá ao castigo, ao suplício da roda, se ela não o acompanhar na fuga. Recolhe-se com ela em Florença, na Itália, e aí vive alguns anos. Com a morte de sua companheira volta para a França, onde é detido em consequência do escândalo de Marselha.
Foge da prisão com auxílio de sua fiel e dedicada esposa, que tudo lhe perdoava. Não pode, entretanto, viver pacificamente em seu lar.
Ligando-se a uma rameira, volta à Itália e aí permanece até 1777, quando retorna à França. Em 1778, ainda com auxílio da esposa, consegue a revisão do processo de Marselha mas a sogra, que não o quer ver solto, consegue que seja anulada a decisão que o inocentava e Sade é recolhido de novo a Vincennes. Passa seis anos nesta prisão (1778-1784), quatro na Bastilha (1785-1789) e um em Charenton, de onde em 29 de março de 1790, em consequência de um decreto da Assembléia Constituinte, é libertado. Suas atividades no desenrolar da Revolução tomam-no suspeito e ele é novamente preso em 93. Só consegue de novo a liberdade em 94. Até 1801 vive tranquilamente ocupado em atividade literárias.
Nesta data, tendo publicado um folheto dirigido contra Josefina de Beauhamais e Napoleão, é detido e internado como louco no hospício de Sainte-Pélagie. Nunca mais verá a liberdade. Em 2 de
dezembro de 1814, morre, aos setenta e quatro anos de idade.

“A Filosofia na Alcova” (La Philosophie dans le boudoir) apareceu pela primeira vez em 1795 como “obra póstuma do autor de Justina”, em dois volumes ilustrados.
Constitui o mais expressivo dos escritos do Marquês nas práticas do vício. É uma antologia da libertinagem.
Outras obras do autor: “Justine, ou les Malheurs de Ia Vertu”, “Juliette, ou Ia Suite de Justine”, “Soloé et ses Deux Acolytes”.

AOS LIBERTINOS
Voluptuosos de todas as idades e de todos os sexos, é a vós somente que dedico esta obra; alimentai-vos de seus princípios que favorecem vossas paixões; essas paixões que horrorizam os frios e tolos moralistas, são apenas os meios que a natureza emprega para submeter os homens aos fins que se propõe. Não resistais a essas paixões deliciosas: seus órgãos são os únicos que vos devem conduzir à felicidade.
Mulheres lúbricas, que a voluptuosa Saint-Ange seja vosso modelo; segui seu exemplo, desprezando tudo quanto contraria as leis divinas do prazer, que dominaram toda sua vida.
Jovens, há tanto tempo abafadas pelo liames absurdos e perigosos duma virtude fantástica, duma religião nojenta, imitai a ardente Eugênia; destruí, desprezai, com tanta rapidez quanto ela, todos os preceitos ridículos inculcados por pais imbecis.
E vós, amáveis devassos, vós que desde a juventude não tendes outros freios senão vossos desejos, outras leis senão os vossos caprichos, que o cínico Dolmancé vos sirva de exemplo; ide tão longe quanto ele, se como ele desejais percorrer todas as estradas floridas que a lubricidade vos prepara; convencei-vos, imitando-o, de que só alargando a esfera de seus gostos e suas fantasias, e, sacrificando tudo à volúpia, o infeliz indivíduo, conhecido sob o nome de homem e atirado a contragosto neste triste universo, pode conseguir entremear de rosas os espinhos da vida.

PRIMEIRO DIÁLOGO
*Madame de Saint Ange, Cavalheiro de Mirvel.. *

MADAME – Bom dia meu irmão; Dolmancé não vem?
MIRVEL – Chegará às quatro em ponto.
Como jantamos somente às sete, teremos muito tempo para conversar.
MADAME – Sabe que me arrependo um pouco da minha curiosidade e dos projetos obscenos que fizemos para hoje? Você é muito indulgente, querido! Justo quando eu deveria ser bem comportada é que se me aquece a imaginação, e mais libertina me tomo: como você me perdoa
tudo, fico cada vez mais mimada… Aos vinte e seis anos, já deveria ser uma beata e não passo da mais devassa de todas as mulheres… Não se pode ter uma ideia de tudo quanto imagino, de tudo quanto quisera fazer; acreditava que, me limitando às mulheres, conseguiria tranquilidade; que meus desejos, uma vez concentrados em meu sexo, não transbordariam sobre o seu.
Quiméricos projetos, meu amigo, os prazeres de que desejava me privar pareceram-me ainda mais tentadores e me apercebi de que, quando se nasceu para a libertinagem, é inútil querer dominar-se: os fogosos desejos irrompem com mais força. Enfim, querido, sou um animal anfíbio: gosto de tudo, tudo me diverte; quero conhecer todos os gêneros; confesso que é uma extravagância completa de minha parte querer conhecer esse singular Dolmancé, que, como diz você, nunca possuiu as mulheres como o costume o prescreve, que, sodomita por princípio, idolatra o próprio sexo e só se rende ao nosso sob a cláusula especial de lhe oferecermos os encantos que está acostumado a encontrar entre os homens. Veja, meu irmão, que bizarra
fantasia! Quero ser o Ganimede desse novo Júpiter, quero gozar de seus gostos, de seus deboches, quero ser a vítima dos seus erros. Saiba que, até agora, dessa maneira só a você me entreguei, por prazer, ou a certo criado que, pago para me possuir desse modo, só o fazia por interesse. Hoje, não é mais por complacência nem por capricho, mas sim por puro gosto… Creio que haverá uma notável diferença entre as duas experiências e quero conhecê-la. Descreva-me bem Dolmancé, afim de que o tenha na idéia antes que ele chegue; sabe que o conheço apenas por tê-lo encontrado durante alguns minutos numa casa onde estivemos.
MIRVEL – Dolmancé acaba de completar trinta e seis anos; é alto, lindo aspecto, olhos vivos e espirituosos; mas algo de dureza e de maldade transparece nos seus traços.
Tem dentes lindíssimos; um certo dengue no mover a cintura e no andar, certamente pelo hábito de imitar as mulheres. É elegantíssimo, tem voz agradável, várias habilidades e sobretudo espírito filosófico.
MADAME – Bem, espero que ele não acredite em Deus…

MIRVEL – Que idéia! É o mais célebre ateu, o homem mais imoral, a corrupção mais completa e integral, o mais celerado dos indivíduos que possam existir.
MADAME – Como tudo isso me excita! Vou adorar esse homem. Quais os seus gostos?
MIRVEL – Você bem sabe: as delícias de Sodoma, tanto passivas como ativas, são-lhe sempre agradáveis. Prefere os homens, e se consente em se divertir com mulheres é sob a seguinte condição: trocar de sexo com ele, prestando-se a todas as inversões.
Falei-lhe de você, eu o preveni de suas intenções; aceita as suas propostas mas, por sua vez, avisa-a das suas condições.
Você não obterá nada dele se pretender induzí-lo a outra coisa. “O que consinto em fazer com sua irmã”, diz ele, “é uma extravagância… Uma brincadeira que me repugna e à qual só me entrego raramente e tomando muitas precauções”.
MADAME – Repugnância… Precauções… Que interessante a linguagem desses moços amáveis! Nós, as mulheres, temos também palavras como estas, particularíssimas, que provam o profundo horror que nos domina por tudo quanto não se refira ao culto de nossa devoção… Diga-me, meu caro, ele já o possuiu? Com seu lindo corpo e seus vinte anos pode, creio, cativar um homem como esse!
MIRVEL – Creio que posso revelar as extravagâncias que juntos praticamos: você tem suficiente espírito para não os censurar. Geralmente amo e prefiro as mulheres; entrego-me a este gozo bizarro apenas quando tentado por um homem excepcionalmente encantador. Nesse caso nada há que eu não faça. Não estou absolutamente de acordo com a ridícula pretensão dos nossos rapazolas que respondem com bengaladas a semelhantes propostas. O homem é senhor de suas próprias inclinações? Não devemos jamais insultar os diferentes, mas lamentá-los; os seus defeitos são defeitos da natureza. Eles não são culpados de ter nascido com gostos diferentes, assim como ninguém tem culpa de ser coxo ou bem feito de corpo.
Aliás, quando um homem confessa que nos deseja, diz-nos, por acaso, uma coisa desagradável?
Evidentemente que não; é um cumprimento que ele nos faz; para que, pois, responder com injúrias ou insultos?
Só os imbecis pensam assim, nunca um homem razoável dirá coisa semelhante.
Isto acontece porque o mundo está povoado por idiotas que se julgam ofendidos quando a gente os considera aptos para o prazer e que, mimados pelas mulheres, sempre ciumentas de seus direitos, imaginam ser os Dom Quixotes desse falsos privilégios, brutalizando aqueles que não os reconhecem.
MADAME – Beije-me, meu caro. Eu não o reconheceria como meu irmão se você pensasse de outra maneira. Dê-me, entretanto, mais informações sobre o aspecto desse homem e sobre os prazeres que juntos gozaram.
MIRVEL – Dolmancé tinha sido informado por um dos meus amigos do soberbo membro que possuo, e fez com que o Marquês de V. nos convidasse a cear. Uma vez em casa do Marquês tive que exibi-lo; pensei, a princípio, que fosse apenas curiosidade mas em breve percebi que era outro o motivo quando Dolmancé voltou-me um lindo cu, pedindo-me que gozasse dele. Eu o preveni das dificuldade da empresa. Ele nada temia. “Posso suportar um aríete”, disse-me, “e não tenha você a pretensão de ser o mais temível dos homens que o penetraram”. O Marquês estava presente e nos estimulava, acariciando, apertando e beijando tudo que nós puxávamos para fora.
Ponho-me a prepará-lo enquanto apresento armas…
Mas o Marquês me avisa: “Nada disso, você tiraria metade do prazer que Dolmancé espera; ele quer uma violenta estocada, quer que o rasguem”. Pois será satisfeito, exclamei, mergulhando cegamente no abismo… Pensa, minha irmã, que tive trabalho; nada disso, meu membro enorme desapareceu sem que eu sentisse e eu toquei o fundo de suas entranhas sem que o tipo desse qualquer sinal de sofrimento. Tratei-o como amigo, torcia-se no excesso da volúpia, dizia palavras doces, e parecia felicíssimo quando o inundei. Quando me desocupei dele, voltou-se com os cabelos em desordem e o rosto em chamas: veja em que estado você me pôs, querido disse-me, oferecendo um membro seco e vibrante, muito longo e fino.
Suplico-lhe, meu amor, queira servir-me de mulher depois de ter sido meu macho, para que eu possa dizer que nos seus braços divinos
experimentei todos os prazeres do culto que venero.
Cedi a seu pedido achando tudo isso bastante fácil, mas o Marquês, tirando as calças, suplicou-me que o enrabasse enquanto era fodido pelo seu amigo. Tratei-o como Dolmancé, que me devolvia ao cêntuplo todos os golpes com os quais eu abatia nosso parceiro e logo me derramou no fundo do cu o celeste licor com que eu regava ao mesmo tempo o eu do Marquês de V.
MADAME – Que prazer delicioso deve ser esse entre duas picas! Dizem que é gostosíssimo!

MIRVEL- Certamente, meu anjo, é um orifício delicioso, mas tudo isso não passa duma extravagância que eu nunca preferirei ao prazer que me dão as bocetas.
MADAME – Pois bem, meu caro, para compensar hoje sua delicada atenção, vou entregar aos seus ardores uma jovem, virgem e linda como os amores.
MIRVEL – Como? Então Dolmancé vai encontrar mais uma mulher nesta casa?
MADAME – Trata-se de educar a menina que conheci no convento o ano passado, enquanto meu marido fazia uma estação de águas. Lá nada ousamos fazer, éramos o alvo de todos os olhares. Prometemos reciprocamente nos unirmos assim que fosse possível.
Perseguida por esse desejo, para satisfazê-lo, travei conhecimento com toda a família. O pai é um libertino que eu consegui cativar. A linda menina chega hoje e passaremos dois dias juntas, dois dias deliciosos.
A maior parte desse tempo empregarei em educá-la.
Dolmancé e eu inculcaremos nessa linda cabecinha todos os princípios da libertinagem mais desenfreada; abrazá-la-emos com o nosso ardor. Alimentando-a com a nossa filosofia, inspirar-lhe-emos nossos desejos. Quero juntar a prática à teoria, quero demonstrar, à medida em que eu dissertar. Você está destinado a colher os mirtos de Citéra e Dolmancé as rosas de Sodoma.
Terei dois prazeres a um tempo, dando lições e gozando eu própria dessas volúpias criminosas, inspirando esse gosto x amável ingênua que cairá na minha rede. Não acha esse projeto digno de minha imaginação?
MIRVEL – Essa idéia só a você poderia ocorrer, prometo-lhe representar com perfeição o papel encantador que me destina. Ah, malandra, como você vai gozar fazendo a educação da pequena!
Que delícia corrompê-la, abafar nesse jovem coração todas as sementes de virtude e religião, aí colocadas por suas mestras. Na verdade, mesmo para mim, essa idéia seria ousada.
MADAME – Nada pouparei para pervertê-la, para degradá-la, para pôr de pernas para o ar todos os princípios de moral que já começam a atordoá-la.
Em duas lições quero que se tome tão celerada, ímpia e debochada como eu. Avise Dolmancé, ponha-o ao par do que se deve passar.
Que o veneno da sua imoralidade circule nesse jovem coração junto ao que eu mesma lá instilarei. Havemos de desenraizar em poucos instantes todas as sementes de virtude que lá pudessem germinar.
MIRVEL – Seria impossível encontrar homem mais adequado. A irreligião, a impiedade, a desumanidade, a libertinagem, fluem dos lábios do Dolmanoé como outrora a unção mística fluía dos lábios do arcebispo de Cambrai; é o mais inveterado sedutor, o homem mais corrompido e perigoso.. Ah! minha cara, que a sua discípula corresponda aos cuidados do mestre e garanto que estará perdida num abrir e fechar de olhos.
Diga-me, porém, não receia nada da parte de seus pais? E se ela der com a língua nos dentes?
MADAME – Não tenha receio, eu já seduzi o pai, pertence-me. Confesso que me entreguei a ele para que fechasse os olhos. Ignora os meus desígnios e nunca ousará penetrá-los. Domino-o.
MIRVEL – Os seus processos são horríveis.
MADAME – E assim devem ser para que sejam eficazes.
MIRVEL – Diga-me, afinal, de quem se trata.
MADAME – Chama-se Eugênia, é a filha de um tal Mistival, um dos mais ricos arrecadadores de impostos. Tem trinta e seis anos, a mulher trinta e dois, a filha
quinze. Mistival é tão libertino quanto sua mulher é beata. Quanto à Eugênia, em vão tentaria pintá-la, faltam-me os pincéis.
Pode estar convencido de que nem você nem eu vimos no mundo criatura tão maravilhosa.
MIRVEL- Já que você não a pode pintar, ao menos faça um esboço para que alimente a minha imaginação com o ídolo em cujo altar sacrificarei.
MADAME – Pois bem, os longos cabelos castanhos, que descem até as coxas, a pele é de uma brancura de neve, o nariz aquilino, os olhos ardentes e negros como ébano, aos quais ninguém resiste. Quanto a mim, não imagina as tolices que faria por eles. Os cílios são traçados a pincel, até as pálpebras são expressivas, a boca é pequena, úmida e fresca, os dentes perfeitos. Um de seus maiores encantos está na elegância com que sua linda cabeça se ergue dos ombros, no ar de nobreza que tem quando a volve. Eugênia é desenvolvida para sua idade, parece ter dezessete anos; a cintura é fina e os peitinhos cheios, de uma beleza incomparável!
Dão apenas para encher a mão de um homem honesto, tão macios e brancos… Perco a cabeça quando os beijo!
Sob as minhas carícias ela se anima, a alma transparece no brilho de seus olhos. Não conheço o resto, mas a julgar pelo que já vi, jamais teve o Olimpo semelhante divindade… Ouço barulho: é ela! Saia pela porta do jardim para não a encontrar e venha na hora exata.
MIRVEL – Como não hei de chegar na hora, para contemplar o que você tão bem descreveu?
Nem sei como sair no estado em que me encontro… veja só, dê-me ao menos um beijo, minha irmã, para que me satisfaça até então! (Madame beija-o, acaricia-lhe o pênis intumescido sob as calças, e ele sai precipitadamente).

SEGUNDO DIÁLOGO
*Madame de Saint Ange e Eugênía:*

MADAME – Bom dia, minha querida! Esperava por você, com uma impaciência que adivinhará facilmente se é capaz de ler meu coração.
EUGÊNIA – Tal era a minha pressa de cair nos seus braços que me parecia impossível chegar aqui! Ainda há uma hora apenas, tremia de medo que tudo mudasse. Minha mãe não se resolvia
a me deixar sair de casa; acha que moça de minha idade não deve sair desacompanhada. Meu pai, que a tinha maltratado na véspera, estava ainda tão zangado com ela, que num só de seus olhares severos decidiu tudo. Madame de Mistival cedeu a tudo quanto meu pai exigiu e corri para cá. Tenho dois dias inteiros, mas é preciso que depois de amanhã volte à casa no seu carro, com uma das suas saias.
MADAME – Que prazo curto, meu anjo! Em tão pouco tempo poderei apenas exprimir o que você me inspira e conversar sobre os tópicos principais. Quero iniciá-la nos secretos mistérios de Vênus. Dois dias bastarão para tanto?
EUGÊNIA – Fique tranquila, enquanto não tiver aprendido tudo não irei embora. Quero tornar-me mestra no assunto.
MADAME, beijando-a – Ah, meu amor, quantas coisas faremos e diremos uma a outra! Vamos almoçar primeiro, pois a lição é complicada…
EUGÊNIA – Nem me fale nisso, só desejo ouvi-la e aprender! Já almocei e até oito da noite não pensarei mais em comer.
MADAME – Passemos então ao toucador onde estaremos mais à vontade. já preveni meus criados, ninguém ousará nos interromper… (Saem abraçadas).

TERCEIRO DIÁLOGO
*Madame, Eugênia e Dolmancé, num delicioso toucador. *

EUGÊNIA, surpresa ao encontrar ali um moço inesperadamente -Meu Deus, querida, que traição é essa?
MADAME, fingindo surpresa – Que ideia foi essa?
Você não devia chegar antes das quatro horas.
DOLMANCÉ – Quem não chegaria antes para ter a alegria de encontrá-la? Foi seu irmão quem me avisou, achando que minha presença seria útil nas suas lições a esta senhorita. Sabendo que neste liceu a senhora faria um curso, aqui me introduzi secretamente, pensando que não a desagradaria. Ele virá logo, quando chegar o instante das suas demonstrações, que só serão necessárias depois das dissertações teóricas.
MADAME – Foi realmente uma surpresa, Dolmancé…
EUGÊNIA – Não me iludo, minha amiga, tudo foi preparado por você. Mas por que não me consultou?… Agora estou com uma vergonha tal que talvez atrapalhe nossos projetos…
MADAME – Asseguro que esta surpresa foi obra de meu irmão, mas agora não fique assustada.
Dolmancé, que reputo um homem gentilíssimo, tem o grau de filosofia necessário para sua instrução, ele só pode ser útil aos nossos projetos; sua discrição é igual à minha. Você ficará logo familiarizada com o homem que nasceu para formá-la, para conduzi-la, na carreira da felicidade e dos prazeres que desejamos gozar juntas.
EUGÊNIA, enrubecida – Sinto-me ainda tão acanhada…
DOLMANCÉ – Oh, minha bela Eugênia, fique à vontade. O pudor é uma virtude que está caindo de moda e não fica bem numa criatura que possui seus encantos…
EUGÊNIA – E a decência?
DOLMANCÉ – Coisa pré-histórica, gótica.. Tudo o que contraria a natureza está fora da moda.
(Dolmancé agarra Eugênia, apertando-a nos braços e beijando-a).
EUGÊNIA, defendendo-se mal – Não, chega! Tenha dó de mim, poupe-me!
MADAME – Ora, Eugênia, não sejamos fingidas com esse moço encantador.
Conheço-o há muito pouco tempo, e entretanto veja como me entrego aos seus ardores. Siga meu exemplo.
(Assim dizendo beija-o lubricamente na boca, enfiando-lhe a língua).
EUGÊNIA – Tem razão, ninguém me poderá dar melhores exemplos: vou imitá-los!
(Entregando-se ao rapaz que a beija doidamente na boca).
DOLMANCÉ – Que deliciosa criatura!
MADAME, beijando também a moça, do mesmo modo – Então, a canalhinha pensa que também não terei uma parte do festim? (Dolmancé agarra ambas, e durante um quarto de horas as línguas dentro das bocas se revezam e se trocam).
DOLMANCÉ – Este prelúdio está voluptuoso e prometedor. Mas que calor está fazendo!
Vamos, meus amores, tiremos estas roupagens cacetes para melhor conversarmos.
MADAME – Boa idéia, aqui estão estas túnicas de gaze, que ocultarão somente aquilo que se deve esconder ao desejo.
EUGÊNIA – Quantas coisas você me induz a fazer…
MADAME, ajudando-a a se despir – Acha-as por acaso ridículas?
EUGÊNIA – Não, mas um tanto indecentes… Como seus beijos são fogosos!
MADAME – A culpa é dos seus seios, botões de rosa apenas entreabertos…
DOLMANCÉ, contemplando os seios da moça sem os tocar – E como prometem delícias mil
vezes mais estimáveis!
EUGÊNIA – Mais estimáveis? Por que?
DOLMANCÉ – Muito mais! (Agarra a moça tentando voltá-la de costas para examinar o traseiro).
EUGÊNIA – Ah, não, ainda não… Suplico-lhe!
MADAME – Ainda não, Dolmancé. Espere. Essa parte do corpo exerce sobre você um tal império que você perderia completamente a cabeça e não saberia mais refletir a sangue frio.
Antes disso precisamos de suas lições. Vamos a elas; em seguida, os mirtos que deseja colher incontinenti formarão sua coroa.
DOLMANCÉ – Consinto, mas ao menos a senhora, Madame, terá a bondade de se prestar ao meu desejo para dar a essa linda criança as primeiras aulas de libertinagem.
MADAME – Pois não. Aqui metem nuazinha: pode fazer sobre mim todas as experiências.
DOLMANCÉ – Que lindo corpo! É a própria Vênus, embelezada pelas Graças!
EUGÊNIA – Querida, quantos atrativos! Quisera percorrê-los todos, um a um, cobrindo-os de beijos. (Se bem o diz, melhor o faz).
DOLMANCÉ – Você mostra excelentes disposições…
Contenha-se um pouco, porém, só quero, por enquanto, que me preste toda a sua atenção.
EUGÊNIA – Estou ouvindo tudo quanto diz, mas minha amiga é tão bela, tão fresca, tão gorduchinha… Não a acha linda, senhor Dolmancé?
DOLMANCÉ – Claro que acho, perfeitamente bela, mas tenho a certeza de que você em nada lhe cede a palma. Quero que me ouça com atenção, como jovem aluna; se não for dócil e atenta usarei amplamente dos direitos que confere o título de professor.
MADAME – Ela é sua, entrego-lha, ralhe muito com ela se não tiver juízo…
DOLMANCÉ – É que não ficarei somente nos ralhos…
Irei mais longe.
EUGÊNIA – Meu Deus, estou ficando apavorada. Que faria então de mim?
DOLMANCÉ, balbuciando e beijando a boca de Eugênia – Ai, esse lindo cu vai ser responsável por todas as loucuras que eu cometer. (Agarra o traseiro de ambas).
MADAME – Aprovo o projeto mas não o gesto.
Comecemos logo, o tempo voa e Eugênia tem que partir. Não o percamos em preliminares, ou não a educaremos…
DOLMANCÉ, tocando, em madame, todas as partes nas quais vai falando – Começo. Aqui estes globos de carne que se chamam peitos, seios ou mamas, são indispensáveis ao prazer; o amante deve contemplá-los, manuseá-los, acariciá-los. Há homens que fazem deles a sede do gozo, introduzem o membro entre essas duas colinas de Vênus; com alguns movimentos apenas conseguem derramar sobre eles o bálsamo delicioso que, ao fluir da fonte, faz a delícia de todos os libertinos. Não acha, madame, que antes de tudo devemos mostrar à menina como é feito
esse membro sobre o qual somos obrigados a falar continuamente?
MADAME – Tem toda a razão.
DOLMANCÉ – Pois bem, senhora. Vou deitar-me sobre o canapé; ambas se colocarão junto a mim; a senhora tomará do meu membro e explicará à nossa jovem aluna todas
as suas propriedades. (Dolmancé deita-se enquanto Madame começa a explicação).
MADAME – Você está contemplando aqui o centro de Vênus, o primeiro agente dos prazeres amorosos, o membro por excelência, que se pode introduzir em todos os lugares do corpo humano. Sempre dócil às paixões do seu possuidor, às vezes se aninha entre as pernas, na boceta (toca a de Eugênia) seu trilho preferido, o mais percorrido e usado; às vezes, porém, prefere um caminho mais misterioso e penetra por aqui (afasta as nádegas mostrando o orifício do cu). Mais tarde lhe explicarei melhor esse gozo, dos mais íntimos e deliciosos. A boca, os seios, as axilas também são altares onde ele queima incenso, enfim, por onde quer que penetre, seja qual for o local preferido, ele se agita até lançar o licor da vida, esbranquiçado e viscoso, cujo fluir mergulha o macho no mais vivo delírio, no mais doce prazer que possa esperar da vida.
EUGÊNIA – Deixe-me, por favor, pegar nesse lindo membro e acariciá-lo.
DOLMANCÉ – Ceda-lhe a vez, senhora, essa ingenuidade pruduz-me louca tensão.
MADAME – Não, oponho-me a tal ansiedade. Tenha juízo, Dolmancé, se você esporrar terá diminuído a atividade do seu espírito e suas dissertações perderão o calor.
EUGÊNIA, acariciando os testículos do moço – Nossa amiga resiste aos meus desejos! E essas bolas para que servem? Como se chamam?
MADAME – A palavra técnica é culhão, a artística é testículo. Esses bagos contém o
reservatório da semente prolífera na qual falei, é a ejaculação dentro da matriz da mulher que produz a espécie humana; mas deixemos essas minúcias que mais pertencem à medicina do que à libertinagem. Uma linda mulher só se deve ocupar em foder e nunca em gerar. Passemos de leve sobre tudo quanto diz respeito ao prosáico mecanismo da multiplicação da espécie para nos ocuparmos principal e unicamente das volúpias libertinas, cujo espírito é oposto ao povoamento da terra.
EUGÊNIA – Querida amiga, como é possível que esse membro enorme, que eu mal consigo abarcar com a mão, possa penetrar, como você me afirma, num orifício tão minúsculo como o do teu traseiro? Que dor horrível deve causar a uma pobre mulher!
MADAME – Quando a mulher ainda não está acostumada sente muita dor, quer a introdução se faça pela frente ou por detrás. A natureza se compraz em nos fazer chegar à felicidade pelo caminho doloroso, mas uma vez a dor vencida, nada mais delicioso do que o prazer. A introdução do membro no cu é incontestavelmente preferível a tudo, mesmo à introdução bocetal. Além disso, quantos perigos evita à mulher, que arrisca menos a saúde e não corre perigo de engravidar. Neste momento não me quero alongar nessa volúpia, pois nosso mestre a analisará inteiramente, juntando a prática à teoria, e estou certa de que ficará convencida, minha cara, que de todos os prazeres, é o que se deve preferir.
DOLMANCÉ – Suplico-lhe, senhora, que seja rápida nas suas demonstrações, ou não me será possível aguentar, farei a descarga mau grado meu, e o meu belo membro reduzido a nada, de nada servirá nestas lições.
EUGÊNIA – Como é possível que fique reduzido a nada ao perder o esperma?
Estou louca para ver essa transformação, sem falar no prazer que terei vendo correr o celeste licor.
MADAME – Nada disso, Dolmancé, levante-se. Isso deve ser o prêmio do seu trabalho; faça-o por merecê-lo antes que eu lho entregue.
DOLMANCÉ – Está bem, mas para melhor convencer Eugênia de tudo quanto lhe dissermos sobre o prazer, que inconveniente haveria, por exemplo, em que a senhora a masturbasse diante de mim?
MADAME – Nenhum inconveniente, pelo contrário, vou fazê-lo com alegria pois pode até ser útil às nossas demonstrações. Sente-se neste canapé, querida.
EUGÊNIA – Oh! Que delicioso ninho! Mas para que tantos espelhos?
MADAME – Isso é para que, refletindo as posições em mil sentidos diversos, eles multipliquem ao infinito os mesmos prazeres aos olhos das pessoas que as observam neste divã. Nenhuma das mais lindas partes dos dois corpos se esconde, tudo fica em evidência, dir-se-iam grupos diversos que o amor encadeia, quadros deliciosos que excitam a lubricidade e servem para completá-la.
EUGÊNIA – Que maravilhosa invenção!
MADAME – Dolmancé, você mesmo despirá a vítima do doce sacrifício…
DOLMANCÉ – Nada mais fácil, basta tirar esta gaze para distinguir os mais íntimos e atraentes
refolhos. (Despe-a e seu olhar concentra-se nas nádegas). Vou vê-lo enfim, o cu divino e precioso que tanto ambiciono! Queima-me o desejo.
Como é rechonchudo, fresco, brilhante e bem feito! Nunca vi mais belo!
MADAME – Ah, canalha, vê-se de que lado se inclinam seus prazeres e suas preferências!
DOLMANCÉ – Poderá haver no mundo algo comparável? Onde teria o amor seu mais divino altar? Eugênia, que minhas carícias mais doces caíram sobre ele, com todo o arroubo!
(Acaricia-o e beija-o com transporte e efusão).
MADAME – Basta, libertino. Não se esqueça que tenho a primazia, somente depois que eu receber suas homenagens é que lhe darei recompensa. Pare com esse ardor pois, do contrário, me zangarei.
DOLMANCÉ – Safadinha, não é necessário tanto zelo! Pois bem, dê-me seu cu que lhe renderei
as mesmas homenagens. (Arranca-lhe a túnica para acariciar-lhe as nádegas).
Também é lindo, meu anjo, e delicioso. Quero compará-los, admirá-los ao mesmo tempo um junto ao outro, como Ganimede ao lado de Vênus! (Distribui beijos inflamados). Para que meus olhos se fartem no espetáculo de tanta beleza, quero que se enlacem e ambas me apresentem essas maravilhosas nádegas que fazem meu enlevo; cus divinos que adoro!
MADAME – Pronto, seu desejo será satisfeito. Aqui nos tem. (Enlaçadas, voltam para Dolmancé a parte dileta).
DOLMANCÉ – Impossível presenciar mais belo espetáculo, é justamente como o que sonhava. Quero que se acariciem reciprocamente as bocetinhas, pois assim os cus se agitarão nas mais lúbricas labaredas voluptuosas; que se levantem e se abaixem em cadência, que sigam as comoções do prazer. Ó gostosura, assim, assim!
EUGÊNIA – Como isto é gostoso, querida! Como se chama o que estamos praticando?
MADAME – Chama-se masturbação, querida, mas agora examine melhor minha boceta ou vagina, que são os nomes mais familiares do templo de Vênus. Vou entreabrir para você, como a corola duma flor, essa gruta encantada. Esta elevação é o monte de Vênus, que se veste de pelos aos quinze anos, quando a mulher começa a menstruar. Essa lingueta ao alto chama-se clitóris, que em grego quer dizer colina, nesse ponto se concentra a sensibilidade da mulher; é o foco, a chave do cofre do amor. A menor carícia me transporta e me dá espasmos de prazer.
Veja, toque-me! Ai! Como sabe acariciar, dir-se-ia que você passou a vida inteira nessa doce tarefa! Pare um pouquinho, não aguento mais, não quero gozar já. Dolmancé, ajude-me, estou perdendo completamente a cabeça com as carícias dessa menina encantadora.
DOLMANCÉ – Para retardar o prazer, passe agora você a titilá-la e que ela seja a primeira a gozar. Assim, nessa postura. Esse lindo cu se coloca naturalmente ao alcance da minha mão; enfiarei ao menos um dedo. Vamos, Eugênia, abandone-se, entregue-se inteiramente, com todos os sentidos, ao prazer. Que somente ele seja o Deus da sua existência, única divindade à qual uma jovem deve sacrificar tudo. Que somente o prazer seja sagrado aos seus olhos!
EUGÊNIA – Ó gostosura, ó delicia, nem posso exprimir o que sinto, nem sei o que digo, o que faço, todos os meus sentidos estão inebriados!
DOLMANCÉ – Como está gozando! Que descarada gostosa! O ânus se fecha de tal modo que quase me machuca o dedo! Seria divino enrabá-la neste instante de gozo!
(Levanta-se, apresentando o caralho à entrada do cu).
MADAME – Não, não, ainda um momento de paciência, quero que nos ocupemos somente em educá-la, sem egoísmo. É tão delicioso ensiná-la, formar semelhante aluna!
DOLMANCÉ – Está vendo, cara Eugênia, depois duma excitação as glândulas seminais se incham, tornam-se túrgidas e acabam por exalar um licor cujo fluir transporta a mulher ao paraíso. É o que se chama descarga. Quando nossa amiga consentir, hei de mostrar-lhe quão mais imperiosa e enérgica é no homem essa operação.
MADAME – Espere um pouco, Eugênia, quero lhe mostrar mais um meio de mergulhar a mulher num abismo de extremo gozo. Abra bem as coxas. Veja Dolmancé, coloco-a de maneira que o cu seja todo seu. Brinque com ele enquanto eu a lambo bem na bocetinha; ela gozará assim duplamente e várias vezes em seguida. Que lindo monte de Vênus, que sedosos pelinhos.
O clitóris não está ainda completamente formado mas já é muito sensível; está agitado como um peixe n’água! Venha, quero que abra as pernas, assim; vê-se bem que é virgem. Diga-me o que sente quando, ao mesmo tempo, minha língua entrar na sua boceta e a de Dolmancé no seu Cu, cumulando ao mesmo tempo essas duas aberturas. (Executam o que dizem).
EUGÊNIA, gemendo de prazer – Ai, queridos, delícia inefável, inexprimível.
Nunca poderia dizer qual das duas línguas é mais gostosa, ou qual delas me mergulha em maior delírio.
DOLMANCÉ – Nesta posição tenho o membro junto à mão de madame. Peço-lhe encarecidamente, senhora, que o acaricie enquanto eu sugo esse cu saboroso, como o colibri ou a abelha sugam uma flor. Enfie sua língua mais ainda, que ela penetre além do clitóris, até à matriz, é o melhor meio de provocar completa descarga, ela ficará toda orvalhada…
EUGÊNIA, gozando – Não posso mais, vou morrer, não me abandonem, desfaleço!… (Tem o espasmo supremo entre ambos os sugadores).
EUGÊNIA – Morro! Não posso mais, não aguento! Ai, ai!… Não entendi duas palavras que acabo de ouvir pela primeira vez. Em primeiro lugar, o que é “matriz”?
MADAME – É uma espécie de vaso em forma de garrafa, cujo gargalo abarca o membro do homem e recebe o líquido produzido pelas glândulas da mulher e a porra do homem. Logo lhe demonstraremos como se produz; da mistura desses licores nasce o gérmen que dá origem às crianças, de ambos os sexos.
EUGÊNIA – Ah, essa definição explica-me ao mesmo tempo o que quer dizer “porra”, que eu não tinha compreendido. A união dessas duas sementes é necessária para a formação do feto, não é?
MADAME – Certamente, embora já se tenha afirmado que o feto deva sua existência tão somente ao esperma do homem. Acho, porém, que ejaculado só, sem o licor feminino, não seria suficiente para a concepção. Nosso licor não faz senão elaborar, não cria nada, ajuda a criação sem ser sua causa. Muitos naturalistas modernos pretendem que o líquido da mulher é inútil, daí, os moralistas concluem que a criança, sendo formada só pelo esperma do pai, só pelo pai sente ternura. Essa afirmação parece verdadeira e, embora eu seja mulher, não a contesto nem a combato.
EUGÊNIA – Sinto no meu coração a prova do que foi exposto. Amo meu pai com loucura e sinto que detesto minha mãe.
DOLMANCÉ – Essa predileção não me admira: penso do mesmo modo. Ainda não me consolei da morte do meu pai e, quando perdi minha mãe, fiquei alegre; detestava-a cordialmente. Adote sem temor esses mesmos sentimentos que são naturais. Formados unicamente do sangue de nossos pais, nada devemos às nossas mães, elas apenas se prestaram ao ato de amor enquanto que nossos pais o solicitaram. O pai quis que nascessemos, enquanto a mãe apenas consentiu nisto. Quanta diferença entre esses dois sentimentos!
MADAME – Você então, Eugênia, tem mil razões a seu favor.
Se há no mundo mãe que deva ser detestada é a sua. Geniosa, supersticiosa, beata, ralhadora e dum fingimento revoltante!
Aposto que essa idiota nunca deu um mau passo na vida. Ah, querida, quanto abomino as tais mulheres virtuosas! Voltarei depois ao assunto.
DOLMANCÉ – Não acha que agora Eugênia, dirigida por mim, deve retribuir-lhe a gentileza e masturbá-la enquanto eu fico a contemplá-las?
MADAME – Consinto, creio mesmo que seja necessário. Enquanto isso, aposto que você também desejará ver minha bunda.
DOLMANCÉ – Não duvide um instante, senhora, do prazer com que lhe renderei as mais efusivas homenagens.
MADAME, apresentando-lhe o traseiro – Que tal me acha assim?
DOLMANCÉ – Maravilha! Desse modo lhe poderei prestar os mesmos serviços que tanto agradaram a Eugênia. Coloque agora, louquinha, a cabeça bem entre as pernas de sua amiga, e devolva-lhe com a língua os mesmos prazeres que ela lhe proporcionou.
Assim! Vejo agora que nesta posição posso gozar ao mesmo tempo dos dois cus, agarrando e apalpando deliciosamente o de Eugênia e chupando o da linda amiga. Assim, muito bem. Que harmonioso grupo, o nosso!
MADAME, gozando – Creio que vou morrer de delícias… que gostosura ter o espasmo enquanto agarro uma pica como a sua! Queria ser inundada de esperma!… Bata punheta, chupe, mais, assim… esporre… Adoro sentir-me puta quando me vejo regada pelo seu esperma. Ai, não posso mais, já acabei; ambos encheram-me as medidas, creio que jamais na vida tenha gozado tanto.
EUGÊNIA – Felicito-me de ter sido causa desse gozo extraordinário. Ainda uma palavra me escapou e não quero perder nada: que quer dizer “puta”? Desculpem-me a pergunta, mas cá estou para me instruir inteiramente.
MADAME – Chama-se assim, querida, toda a mulher que é vítima da volúpia dos homens, que está sempre pronta para se entregar às exigências do temperamento ou do interesse. Felizes e respeitáveis criaturas que a opinião condena mas que a volúpia coroa. São muito mais úteis à sociedade do que as hipócritas; têm a coragem de se sacrificarem, para servirem-na, a consideração que essa mesma sociedade tão injustamente lhes nega. Vivam as putas que honram esse título a nossos olhos! São as mulheres verdadeiramente amáveis, as únicas verdadeiras filósofas! Quanto a mim, que há doze anos trabalho para merecer esse título, longe de me escandalizar, dele me orgulho. Preciso que assim me chamem quando me fodem, para que meu prazer atinja o auge.
EUGÊNIA – Compreendo, querida. Também eu, embora longe de merecer tal título, não ficaria zangada se o portasse. Não crê, porém, que a virtude nos proíbe de assim nos comportarmos?
Não a ofendemos com todos os atos que aqui temos praticado?
DOLMANCÉ – Renuncie de vez à virtude, Eugênia! Haverá jamais um só sacrifício imposto por essa falsa divindade que valha um minuto dos prazeres fruídos quando a ultrajamos? A virtude é uma quimera cujo culto consiste em perpétuas imolações e sacrifícios, em revoltas sem número contra tudo quanto o nosso temperamento exige. Como poderiam ser naturais semelhantes impulsos? Como poderia a natureza aconselhar que agíssemos contra todas as suas regras? Eugênia, nunca seja vítima dessas mulheres que se dizem virtuosas.
Talvez elas não sirvam às mesmas paixões que nós, servem, porém, a paixões mais desprezíveis e mais baixas; a ambição, o orgulho, os interesses particulares e mais frequentemente um temperamento glacial que nada exige. Para que, pois, copiarmos semelhante criaturas? Por que razão há de ser mais honesto fazer sacrifícios no altar do egoísmo do que no altar da paixão?
Elas obedecem apenas, cegamente, o amor de si próprias… Creio, pois, que entre essas duas paixões uma não pode ser inferior a outra, escutemos a voz da natureza que tem sempre razão, é a única. que vem do fundo do nosso ser, enquanto a outra é bobagem e preconceito. Uma só gota de porra que minha pica ejacula, Eugênia, é mais preciosa para mim do que os atos mais sublimes duma virtude que eu desprezo.
(Pouco a pouco nossos personagens se acalmam, as mulheres vestem novamente as túnicas e deitam-se no canapé, enquanto Dolmancé senta-se numa poltrona).

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