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FILHOS DO DIABO

Raul Seixas sabia o que dizia: o Diabo é o pai do rock. E o terror é um dos temas mais frequentes dos filhos dedicados do anjo caído, onipresente no shock rock e no metal.

A grande atração da noite de domingo passado, 25 de setembro, no Rock In Rio, era o Metallica. Outra banda, contudo, roubou a cena: o octeto mascarado Slipknot.

As redes sociais serviram de termômetro para o estranhamento de quem ainda não conhecia a banda, formada em meados dos anos 90, em Iowa (EUA).
A música do grupo não era exatamente nova. Ora chamado de nu metal, ora de speed metal, a banda soa como um thrash metal vigoroso (cartilha escrita, aliás, pelo próprio Metallica e seguida com louvor pelos brasileiros do Sepultura), com seu potencial para o barulho amplificado pela adição de dois percussionistas, um DJ e um sampler. O que chamava a atenção era mesmo a performance ensandecida e, sobretudo, a imagem. Afinal, o que dizer de uma bando de sujeitos vestindo macacões negros, com máscaras que parecem saídas de um filme de terror.
A comparação não é aleatória. A temática das letras, como em parte das bandas de metal, orbita entre cenas de pesadelo, satanismo e violência (com direito a serial-killers, claro). O videoclipe de um dos primeiros sucessos da banda, “Spit it out” (1999), trazia referências explícitas ao filme “O Iluminado” (1980), adaptação do romance de Stephen King, dirigido por Stanley Kubrick.

Origens:
Longe de ser pioneiro nesta aproximação do terror, o Slipknot faz parte de uma linhagem longeva. Ainda nos anos 50, quando o rock não ia muito além de Elvis Presley e outros topetudos, Screamin´ Jay Hawkins já gostava de entrar em cena dentro de caixões. E sua canção mais famosa, “I put a spell on you” (mais tarde regravada pelo shock rocker Marilyn Manson), era uma balada ambígua, cheia de sons estranhos e menções à feitiçaria.
O casamento, contudo, só iria se concretizar no fim dos anos 1960, nos EUA, com Alice Cooper; e na Inglaterra, com o Black Sabbath. Cada um criou um gênero longevo, com seguidores que seguem à risca seus mandamentos sombrios.
Alice Cooper é o pioneiro do chamado shock rock.
Antecipava em alguns anos o caráter teatral do glam rock – David Bowie, T. Rex, Queen e outros. O show, contudo, era de horrores. O nome adotado por Vincent Furnier foi tomado de empréstimo de uma bruxa. A maquiagem negra sobre os olhos e lábios completavam o personagem. No palco, seu espetáculo foi ganhando elementos sinistros, como cobras vivas.
Há até uma decapitação do próprio cantor, presente até hoje em suas turnês.
Na trilha de Alice Cooper, outros artistas experimentaram uma teatralização do macabro. Ainda que, em geral, não trate de ocultismo ou temas fantasmagóricos, o quarteto norte-americano Kiss deu sua contribuição ao gênero. Com músicos fantasiados e maquiados, o grupo tinha sua hora do espanto, como na clássica performance do baixista Gene Simmons – que encarna, justamente, o personagem Demônio – de vomitar sangue (falso) no palco. Por essas e outras, não faltaram teorias da conspiração em torno do nome da banda. O beijo (kiss) seria, na verdade, uma sigla, para Knights in Satan´s Service (Cavaleiros a Serviço de Satã) – bobagem que nem a própria banda endossou.

Atualizando as ideias de Alice Cooper, Marilyn Manson ficou famoso por trazer ao palco situação extremas, como sangue real e simulações de assassinato. A impressionável comunidade cristã norte-americana mordeu a isca e chamou atenção para a performance “herética” de Manson no palco, rasgando bíblias e subvertendo signos como a cruz e o Cristo. Seus vídeos são capítulos à parte, recriando imagens de pesadelo e fazendo uso recorrente de imagens de deformações, mutilações, dentre outros elementos sinistros. E Manson chegou mesmo a planejar mergulhar no terror:
prometeu (mas não executou ainda) dirigir uma biografia gótica do autor de “Alice no País das Maravilhas”, Lewis Carroll.
Na mesma época que surgiu Marilyn Manson, Rob Zombie fazia sucesso com sua banda White Zombie (nome tirado de um antigo filme de terror).
Acompanhando ou em carreira solo, Zombie é praticamente monotemático, evocando em suas canções elementos clássicos de filmes de terror – sobretudo em suas encarnações mais trash. O cantor tornou-se mesmo diretor do gênero, sendo responsável pelo reinício da franquia “Halloween” e pelos divertidos e violentos “Rejeitados pelo Diabo” e “A Casa dos Mil Corpos”.
A lista de artistas que rezaram na cartilha do shock rock não é curta. Vai dos mascarados do Slipknot a Lady Gaga (não tão rock assim, mas exímia recicladora das ideias visuais de Marilyn Manson), destacando-se ainda bandas de ascendência punk, como Misfits e Murderdolls. No fim dos anos 70, o rock gótico também iniciariam uma aproximação do o universo do terror.
Ícone maior desta vertente é o clássico “Bela Lugosi´s Dead”, tributo do Bauhaus ao melhor intérprete de Drácula no cinema.

Metal:
Identificar o metal ao terror é reduzir o gênero musical – e, em grande medida, desconhecê-lo. Há, claro, uma
partilha de temas, principalmente nos terrenos do ocultismo, do sobrenatural e a violência. Contudo, mesmo estes temas não são onipresentes da discografia headbanger. Há bandas por aí cantando sobre paganismo, problemas sociais, infelicidade, amor(!) e toda sorte de assuntos.
O parentesco, contudo, é explicado pelo próprio Ozzy Osbourne, patriarca do gênero, que fundou junto de seus companheiros de Black Sabbath, em fins dos anos 70. Em sua primeira autobiografia, “Eu sou Ozzy”, o cantor relembra dos primeiros tempos da banda, quando moleques em Birmigham (Inglaterra), os
músicos buscavam um diferencial para sua música. A ideia, credita Ozzy, veio do guitarrista Tony Iommi: por que não criar uma “música de medo”, já que (à época) os filmes de terror lotavam as filas de cinema?

A música do Black Sabbath assustou algumas pessoas, que quiseram distância daquele primeiro disco, lançado em 1970, com uma sombria bruxa estampada na capa.
Mas como uma boa história de terror, ele envolveu muita gente e foi o ponto de partida de umas das mais prolíficas vertentes do rock, o talentoso filho do Diabo.

FONTE: http://diariodonordeste.globo.com/imagem.asp?Imagem=544234

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